Apesar da ciência.

Desde que te conheci que trago o coração nas algibeiras. Os meus sapatos num percurso estrangeiro, desconhecido. Fazem-se as coisas do costume, força-se a vida a acontecer, a continuar. Se não fizer isto tudo estanca: aquela nespereira da janela pára de crescer, o meu moinho de vento pára de rodar, cessa a respiração, tudo fica inerte como numa fotografia. Por isso, fazem-se as coisas do costume, empurra-se a vida para a frente, para que aconteça a que custo for, mas que não páre. Rezo a todos os deuses, eu que não acredito em nenhum, por favor que não páre. É uma luta incessante, silenciosa, como uma dança, uma mão invísivel a tocar-te na ferida. Tenta-se continuar a andar, ando o mais direita possível, como se o ângulo que se descreve entre os meus ombros e a horizontalidade do chão fosse desmascarar-me. Ando o mais direita possível, olho muito para os lados. Olho muito e vejo pouco, estou cada vez mais míope. Juro que é a verdade embora a optometria me desminta com os seus infindáveis valores técnicos, matemáticos. A verdade é que vejo cada vez menos, apesar da ciência me garantir em dioptrias que estou errada. É por estes mal entendidos que às vezes digo que acredito tanto na ciência como em Deus, o que nem sequer é verdade. Mas não há como não me mostrar indignada, ofendida. Vejo cada menos e ninguém me acredita.
Trago o coração nas algibeiras, insisto em fazer a vida acontecer, vou continuar a resistir até a minha energia se esgotar. E juro, em voz alta para que me ouça, que tudo isto é verdade.


5 Comments:
Tu (que és uma ateia incondicional) a falar em rezar aos deuses? Andas a picar-te?!
Não, a picar-me não. Não faz o meu género. :)
como eu percebo a história de ateus rezarem a deuses que não acreditam...
eu para variar estou com um novo blog, passa por la...
myway2me.blogspot.com
bjinhos
Estás sempre a mudar de blog! Passarei por lá! beijo
ainda nao encontrei o meu espaço cibernetico pelo que cada blogue tem um proposito que tambem se esgota.lol
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