O imperdoável

Começou assim.
Eu sentada a fumar à noite, no lancil, como se não estivesse mais ninguém na rua. Como se a rua me pertencesse. Como se a desprezasse. Debaixo daqueles olhos metálicos fiquei quieta, imóvel, tentando confundir-me no meio do movimento dos outros, ser a perfeita banalidade. A invisibilidade foi-me sempre uma arte cara e fácil. A invisibilidade e a frieza. Mas ainda assim, de pouco me valeram. Como um jogador de poker a suar, a pestanejar, a hesitar.
Debater-me foi um exercício inútil. A cada investida a minha máscara tremia um pouco mais. Agarrava com força os dados para não os soltar, como se a próxima jogada pudesse ser dramática. Mas nunca houve nada de dramático, apenas de insensato. Uma total ausência de lógica, de raciocínio, um nó nos dedos, os vestígios dos dias, um qualquer deus cheio de ironia a pregar-nos partidas. O imperdoável.
Refugiei-me nos bares, nos cigarros, na selvajaria. As noites em claro, a areia da praia na dobra das minhas calças, frases curtas, palavras pequenas. Sem querer foi tudo como naquela descrição de Bréton, como num polaroid.
Sem querer vivemos como no cinema.


6 Comments:
Andas mesmo introspectiva!!
Bonita imagem, belo texto.
Mas o que é que fizeste de tão imperdoável?
Certamente que não te referes à mesma coisa, mas as tuas palavras lembram-me algo muito semelhante.
A foto é tua? Assumo que não pelos dados invulgares.
Não, a fotografia não é minha. :)
Mas que fizeste de tão imperdoável?
Pelo texto não se percebe...
Há coisas que são imperdoáveis mesmo que não as faças.
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