terça-feira, abril 08, 2008

º Catárse III º

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Sentava-me em frente à máquina de escrever e esperava. Passavam-se horas nisto. Esperava como se a poesia pudesse ficar exasperada e viesse bofetear-me para que começasse a escrever. Mas a bofetada nunca veio, apesar da minha paciência, e à máquina nunca ensinei a escrever outra coisa como substituto da poesia.
Em frente à máquina de escrever vi mil polaroids, dezenas de rostos que memorizei. Vi as minhas amantes, todas - as mais queridas e as mais tristes. Li todos os livros da estante, bebi em todos os bares, vi todos os filmes daquele realizador que amei. E no entanto, nada.
A poesia parecia ter-se esvaido dos objectos e das memórias - onde outrora houve tanto havia agora um enorme sem-poesia a troçar-me. Então, inspecionei minuciosamente a minha pele, as minhas mãos, a nuca, a palma dos pés, as costas. Inspecionei cada polegada do meu corpo à procura da ferida por onde a poesia pudesse ter escorrido para fora de mim. Mas não havia qualquer ferida, não tocava qualquer música, a máquina de escrever em silêncio. De nada valia a procura: a poesia é uma amante de viagem, cujos dedos não têm alianças.
Então sentei-me novamente em frente à máquina de escrever e pûs-me à espera.

1 comentário:

Ezequiel Coelho disse...

A poesia, subreptícia, habita até na sua própria negação. Cada centímetro que conquistas, aumentando o perímetro do teu espaço (que só se enriquece na presença dos outros), permite-te encontrar novos pontos estruturais, fundamentais para uma boa auto-construção.
Parabéns pela bofetada!