quinta-feira, janeiro 10, 2008

º Textos do fundo do baú º

Ela era muito bonita. E sabia-o. E sabia ondular em compasso, um assim de mais ninguém. Ondulava no meu cérebro, à minha frente, na cama, no chão. Ela era muito bonita. E saiba-o. Gostava de passear-se devagar no corredor, com o pretexto de não saber que fazer, dançando à minha frente. O corpo girava, os olhos fundos sempre a fitar-me com um sorriso enigmático, ora de provocação ora de desdém. Depois iniciava o ritual de sempre, que desempenhava meticulosamente, gesto a gesto. E aquele riso nos lábios, tão retorcido. Sentava-se e ficava em silêncio. E aquele sorriso nos lábios, tão turvo. Inclinava a nuca para trás e para o lado, como em câmara lenta, como se não existisse mais nada ou ninguém naquela sala. E aquele sorriso nos lábios, tão maldoso. Ela era muito bonita e cruel. E sabia-o. Hoje sei que sentia prazer na sua maldade, aquela feita da mais perfeita sensualidade. Sim, ela era sensual. Agarrava uma taça de vinho, a música, essa, só ela a ouvia dentro da sua cabeça. A música era só dela, só dela. Ela era egoísta. Tinha muitos segredos, falava pouco. Havia muito silêncio, poucas palavras. Um dia disse-me que as palavras a gastavam. Então eu calava-me também e observava-a.

1 comentário:

Oscar disse...

"Um dia disse-me que as palavras a gastavam. Então eu calava-me também e observava-a." Mesmo que se nos gastem, o lugar das palavras é na superfície do lago, ou da língua, se preferires, e não no fundo do baú (que vira tesouro difícil de encontrar). Traz mais destes, Menina, porque quem escreve bem és tu. 2008 beijos para ti.