sexta-feira, janeiro 25, 2008

º Hoje estou pelos cabelos º

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segunda-feira, janeiro 21, 2008

Textos do baú II º

Não existe nenhum espaço comum onde todos possamos ficar. Há poucas coisas tão egoístas como viver. Por isso a experiência de todos é de certa forma, inevitavelmente, resultado de anos e anos de egoísmos sucessivos. Caminhamos com fomes, com dores, com saudade, com desejos e perdas nas mãos, nas costas, nos pés. E com punhais e pedras e palavras eficazes e subtis como veneno. Caminhamos com atropelos e resgates, com presenças e ausências decoradas com requintes de maldade. E orgulhamo-nos disso. Não porque tenhamos consciência do facto. Orgulhamo-nos porque nos orgulhamos e pouco mais. A liberdade é um fardo que passa de terceiro em terceiro num jogo entrinçado, multiplicado ao expoente do desejo. Não tenho dúvidas, há poucas coisas tão egoístas como viver. Viver ou morrer, partir ou ficar, vegetar ou reagir, a partir da altura em que se começa a existir já se furtou tudo o que se agarrou. Daí para a frente é tudo uma dança perniciosa que se tacteia com fervor, daquele tipo de fervor que ninguém sabe explicar. Guarda-se como uma arma que se soma às que já se possui, com a mais rude e fria das cobiças. Evocamos argumentos e factos, mentiras e blasfémias, gastamo-nos com justificações e outras tantas. Perdemos tempo com as coisas mais cruéis, exasperamo-nos pelo prazer de o puder fazer. Abandonamos e amamos, esquecemos e recordamos da forma mais puramente aleatória que podemos. Aspiramos ao estádio de maior hedonismo possível. Somos mais humanos que humanos, super-humanos, super-cretinos sempre em ascensão. Repare-se: nunca ascendemos o necessário, há sempre mais alguma coisa a liquidar. E que espanto este de corroer sempre mais alguma coisa. Que prazer este de dilacerar bocadinhos ao mundo. Somos egoístas de mais até para viver sós ou deixar viver. Somos super-cretinos de bolsos cheios de doces corrosivos que se distribuem como prémio de consolação para uma espécie de amor em part-time.

º Novas aquisições º

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Joy Division - Still (1985)


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Michael Cashmore - The Snow Abides (2006)

quinta-feira, janeiro 10, 2008

º Textos do fundo do baú º

Ela era muito bonita. E sabia-o. E sabia ondular em compasso, um assim de mais ninguém. Ondulava no meu cérebro, à minha frente, na cama, no chão. Ela era muito bonita. E saiba-o. Gostava de passear-se devagar no corredor, com o pretexto de não saber que fazer, dançando à minha frente. O corpo girava, os olhos fundos sempre a fitar-me com um sorriso enigmático, ora de provocação ora de desdém. Depois iniciava o ritual de sempre, que desempenhava meticulosamente, gesto a gesto. E aquele riso nos lábios, tão retorcido. Sentava-se e ficava em silêncio. E aquele sorriso nos lábios, tão turvo. Inclinava a nuca para trás e para o lado, como em câmara lenta, como se não existisse mais nada ou ninguém naquela sala. E aquele sorriso nos lábios, tão maldoso. Ela era muito bonita e cruel. E sabia-o. Hoje sei que sentia prazer na sua maldade, aquela feita da mais perfeita sensualidade. Sim, ela era sensual. Agarrava uma taça de vinho, a música, essa, só ela a ouvia dentro da sua cabeça. A música era só dela, só dela. Ela era egoísta. Tinha muitos segredos, falava pouco. Havia muito silêncio, poucas palavras. Um dia disse-me que as palavras a gastavam. Então eu calava-me também e observava-a.