quinta-feira, outubro 18, 2007

º E então tornei-me ateísta º

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ateu 1 s.m. indivíduo que nega a existência de qualquer divindade 2 adj. que nega a existência de qualquer divindade; incrédulo; céptico (Do gr. átheos, «ateu», pelo lat. atheu-, «id»)


Nasci no seio de um casamento improvável. O meu pai, comunista ferrenho, a minha mãe, católica conservadora. Fui baptizada, sem qualquer direito a voto no assunto, por insistência da minha mãe e avós. Em casa o meu pai falava de "deitar abaixo a Igreja" enquanto a minha mãe assistia pela televisão às diligências de um qualquer Papa em Fátima. Foi também por insistência unilateral da minha mãe que tive catequesse. No dia da minha Primeira Comunhão tive direito a uma festa grande e muitas prendas. Foi a primeira vez, aos sete anos, que tive a sensação de que a fé se pode comprar. A Profissão de Fé e o Crisma vieram no seguimento lógico de um caminho que acabou por parecer óbvio. Na cerimónia de Crisma, lembro-me bem, o padre falou do Demónio e das Trevas, do Deus castigador e punidor, e só depois da Luz e da misericórdia. Alguém, anos mais tarde, ao ver as fotografias me perguntou porque "estavam todos a sorrir menos tu". Hoje, quando penso nisso, tenho a certeza que julguei na altura já ter mergulhado no escuro à muito tempo. Ainda assim a fé, aquela que ainda não sabia que não tinha, acompanhava-me a todo o lado.
Aos 17 anos apaixonei-me por uma mulher e com a paixão veio também a crise de fé, a sensação de ter sido abandonada por aquele Deus, o Deus dos outros. Veio também o desespero, a vergonha, a solidão e com eles os segredos, as lágrimas e as mentiras e as questões intermináveis. Procurei todas as fés, o protestantismo, o budismo, o hindúismo, o niilismo, a selvajaria. Mas eu não cabia em nenhuma. A libertação de uma religião é como uma morte, acredite-se ou não. O poder da educação de anos a fio é inestimável. Ainda assim, não é irreversível. Deixei de ouvir os outros e comecei finalmente a ouvir-me a mim. A fé - aquela dos outros - eu nunca a tive e assim ela acabou por me deixar em paz.
Hoje, quando penso nisso sinto vontade de rir, os dias de infância, a adolescência, a inocência. Não me envergonho de nada, recusar qualquer coisa que não se conhece pode ser um acto de ignorância.
E então, tornei-me ateísta.

3 comentários:

mfranco disse...

... nao conseguindo dizer muito mais porque sempre fui melhor a sentir e compreender do que a expressar... mas simplesmente... ler-te faz-me ter vontade e escrever... e admiro a coragem porque mto do que escrevo ainda nao revelo, por um medo que e so meu e de mim


beijinhos de muita saudade
miguel

ez disse...

Conheço quase todos esses sentimentos.
É bom estar em Paz consigo mesmo, não é?
Beijo

Ana disse...

Pois é, filhota, revi-me neste teu "desabafo religioso" e faço das tuas palavras...quase todas as minhas tb em relação a este tema. Ambiente familiar, com as mesmas forças "ocultas" a puxar em sentidos inversos: pai comunista,sonhador, idealista e ateísta vs mãe filha de Pastor protestante...enfim! Aqui fica a minha admiração/orgulho de mummy babada por esse teu "cerebrozinho" que manda cá para fora coisas tão bem pensadinhas! Feliz 24´s.jolas