domingo, junho 18, 2006

º Tem-se um anel e nove dedos mais º

Na estaticidade surda do quarto as minúsculas partículas de pó, tornam-se ora vísiveis ora invisiveis, na luz rasante despejada pelas frestas dos estores. São como línguas estas frestas, e percorrem as paredes como um animal rastejante que se quer inteirar do espaço em volta. Apercebo-me do cenário. É de manhã, mas não saberia dizer que horas são ao certo. De manhã, é vago, como é vago também este cenário como se estivesse a diluir-se devagar. Na cama estou eu, envolvida num lençol vermelho-sangue (lembro-me, eu disse-lhe gosto de vermelho-sangue). O lençol parece-me uma mancha contra as paredes, brancas. Á minha volta tudo está impecavelmente arrumado e limpo - a roupa dela dobrada sobre a cadeira, as velas e as molduras milimetricamente situadas e dispostas para o observador, as telas que eu pintei, as fotografias, o cheiro do incenso que eu trouxe numa tarde.
Só a minha roupa está espalhada pelo chão - o paradoxo. Tudo me parece, de repente, plástico, artificial como uma grande montagem de cenografia. Tudo aqui é um esforço metódico para captar a imagem perfeita e prolongá-la, cristalizá-la. Eu, espectador-actor de 1º acto, numa peça da qual desconheço o nome e as deixas, de palco cheio e plateia vazia.
De repente acorda-se e tem-se uma casa, um corpo deitado ao nosso lado, muitos gatos, um cão, uma familia. Acorda-se, e é assim, tem-se muita coisa e não se esperava nada. Tem-se um anel, nove dedos mais, muitas dúvidas e poucas certezas.

Sem comentários: