sexta-feira, junho 30, 2006

º Mudanças ou (re)começar de novoº

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8 meses depois. Mudar de casa.
Empacotar as coisas. Selar as caixas. Tirar as minhas fotografias da parede. E os postais. Recolher todas as velas, o queimador de incenso. Desmontar a minha cama japonesa. Arrumar os livros e discos. Tirar as fotos do Joshua Benoliel da parede. Recolher a escova de dentes, o meu roupão de banho. As toalhas, os chinelos. Os meus VHS e dvd. O meu cachimbo de água. Os meus sapatos. Os meus lençois. As almofadas. A minha roupa. As minhas peugas pequenas de verão. As minhas meias de risquinhas. As minhas folhas de pauta. O meu metrónomo de corda. A cera das velas no chão do meu quarto. As portadas das janelas. Aquela porta perra. Os cigarros que eu fumei na sala. As lágrimas que eu chorei no corredor. A fechadura da porta. As gargalhadas que eu dei à janela. O sol que eu pintei a amarelo para me alegrar. E as paredes vermelhas do meu quarto, que eu pintei numa tarde de inverno.
Mudar-me temporariamente para o Bairro.
Mudar de vida.
Começar de novo. Outra vez.

quarta-feira, junho 28, 2006

º Há dias assim º

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quinta-feira, junho 22, 2006

º Olhando por trás das costas sem, no entanto, me virar º

ela disse: - há na tua voz uma frieza subtil, como que um desencanto de mim.
eu disse: - quando as nossas mãos se tocam, agora, é como uma melodia que deixou de tocar, uma corda partida de uma guitarra, uma orquestra sem maestro, o som estrangulado de uma flauta.
ela disse: - uma melodia que deixou de tocar.
eu disse: - sim... estar aqui contigo é como caminhar para a frente, olhando por trás das costas sem, no entanto, me virar.
e conclui: - deixou de tocar, uma melodia que deixou de tocar. Parou.

quarta-feira, junho 21, 2006

º Anotamentos de desgate II º

Não gosto de mentiras. Elas só trazem solidão.

º Anotamentos de desgate I º

Custa-me a levantar de manhã. Talvez sejam demasiadas noites em branco a pesar-me agora. Durante a tarde sinto-me sonolenta e não consigo estudar. Durante a noite tenho insónias e estudo até o fumo dos cigarros me intoxicar e um charro me ajudar a adormecer. Já lá vai um més de exames e a recta final parece sempre a pior.

domingo, junho 18, 2006

º Tem-se um anel e nove dedos mais º

Na estaticidade surda do quarto as minúsculas partículas de pó, tornam-se ora vísiveis ora invisiveis, na luz rasante despejada pelas frestas dos estores. São como línguas estas frestas, e percorrem as paredes como um animal rastejante que se quer inteirar do espaço em volta. Apercebo-me do cenário. É de manhã, mas não saberia dizer que horas são ao certo. De manhã, é vago, como é vago também este cenário como se estivesse a diluir-se devagar. Na cama estou eu, envolvida num lençol vermelho-sangue (lembro-me, eu disse-lhe gosto de vermelho-sangue). O lençol parece-me uma mancha contra as paredes, brancas. Á minha volta tudo está impecavelmente arrumado e limpo - a roupa dela dobrada sobre a cadeira, as velas e as molduras milimetricamente situadas e dispostas para o observador, as telas que eu pintei, as fotografias, o cheiro do incenso que eu trouxe numa tarde.
Só a minha roupa está espalhada pelo chão - o paradoxo. Tudo me parece, de repente, plástico, artificial como uma grande montagem de cenografia. Tudo aqui é um esforço metódico para captar a imagem perfeita e prolongá-la, cristalizá-la. Eu, espectador-actor de 1º acto, numa peça da qual desconheço o nome e as deixas, de palco cheio e plateia vazia.
De repente acorda-se e tem-se uma casa, um corpo deitado ao nosso lado, muitos gatos, um cão, uma familia. Acorda-se, e é assim, tem-se muita coisa e não se esperava nada. Tem-se um anel, nove dedos mais, muitas dúvidas e poucas certezas.

quarta-feira, junho 14, 2006

º Agarra-me esta noite... º

Onde estiveres, eu estou
Onde tu fores, eu vou
Se tu quiseres assim
Meu corpo é o teu mundo
Um beijo, um segundo
E és parte de mim

Para onde olhares, eu corro
Se me faltares, eu morro
Quando vieres distante
Corto as amarras e
Tocam guitarras por ti como dantes

Agarra-me esta noite,
Sente o tempo que eu perdi,
Agarra-me esta noite que amanhã não estou aqui...

º Acabo de cuspir o coração º

"Algo estava a sair-me da garganta, a estrangular-me. Rasguei o cordão que o retinha e arranquei-o. Voltei para a cama e disse: acabo de cuspir o coração. (...)
Aqueles que escrevem sabem o processo. Pensei nisto enquanto cuspia o coração."
Anäis Nin, A casa do incesto

domingo, junho 11, 2006

º Hoje sou angolana º

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E porque nas últimas semanas vimos emergir o neo nazismo dos ultra nacionalistas, e porque o jogo de hoje do mundial está já envolto numa polémica de racismo, hoje sou angolana.

sexta-feira, junho 09, 2006

º Há dias...º

... em que os sapatos que calças nem parecem os teus.

terça-feira, junho 06, 2006

º Da estupidificação do coração º

Nunca vou compreender a voluntária estupidificação do coração. Aquela feita de medos e dúvidas que não existem, de afectos e cuidados que não estão lá, de amizades e ombros que são só de palavras.
Verdade, nunca vou compreender a estupidificação das relações entre pessoas, pela mera arte da estupidificação. Aplausos. Ter a certeza que somos todos mais felizes assim.
Ou não.