domingo, janeiro 22, 2006

º O gato e a fera º

Tenho o temperamento dos gatos. O temperamento esquivo e atento dos gatos. Disseram-mo. Na verdade, gosto de me sentar num canto confortável e discreto nos bares onde observo minuciosamente o espaço. Decomponho os sons e os movimentos e as caras em partes que depois associo, somo e divido de forma aleatória. Construo laços e confiança lentamente, sou cautelosa mas curiosa como os gatos. Defendo o meu espaço e o coração - território sem muros - de forma instintiva e cortante. Se me sinto entediada desapareço de um pulo para um sitio onde possa repousar o animal que há em mim. Sim, sou como os gatos. Sei, aliás, que há em cada ser que move um animal à espera, ora feroz ora dócil. Reconheço-o pelo olhar. Assim, não temo ninguém. Temo as feras por baixo da pele. É nos ossos que se esconde a fera, localizada por detrás do reflexo do espelhos. No meu corpo, entranhada no meu esqueleto, há também uma fera.
Uma fera na selva.

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