quinta-feira, dezembro 01, 2005

º O lado oculto do medo º

É através do teu rosto de pedra que perscruto o lado oculto do medo.
Vem, atravessa-te no meu caminho de solidão em punho, ergue-a contra mim como quem ergue a arma de um carrasco.
É através da tua voz que ouço o silvo da falsa consciência, madrasta de uma guerra que sempre deprezei.
Vem, esmaga-te contra mim, parte-te desfaz-te esmigalha-te em cacos como desejas.
Vem, não te prendas.
É através da fria mão estendida que abres o cadafalso em que engoles teias finas de sentidos alheios. Pouco tens que seja teu.
Vem, desafia-me provoca-me enfrenta-me sem essa falsa nobreza que agitas como bandeira à frente dos outros para que pareça real. Eu não sou os outros.
É através do teu rosto que vejo a fraude dos teus próprios sentimentos, hás-de seguir remexendo-lhes às escondidas para que possas enganar-te melhor.
Vem e faremos um recontro sangrento de despojos e cacos e farrapos e cadáveres e temores inanimados como eram os teus pesadelos assustadores de criança.
Vem dilacerar-me se te liberta, ou abraçar-me se te liberta, só não me atinjas mais com o nó das tuas mãos vazias, que essas não foram feitas para as minhas.

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