sábado, novembro 26, 2005

º Insónia negra cinzenta azul º

Pânico. Frio. Caos. O barulho ensurdecedor das ruas. À noite. Os últimos dias de Novembro.
Desolação, é a palavra que se arrasta na calçada, na cadeira onde me sento e páro, a palavra que se arrasta pelo meu corpo.
Desolação, hoje sou eu o teu mártir, um farrapo atirado contra as lâminas do tempo. O tic tac das horas a ameaçar parar de súbito para me esmagar.
Noites escuras de inverno deitadas à minha cabeceira a gemer-me ao ouvido para que não durma.
Insónia. O visão de tudo o que me escapa.
Insónia silenciosa e mortífera, negra cinzenta azul, um retalho de pedacinhos de vidro moído que trago debaixo da língua.
Uma manta, o pó das coisas. Levanta-se um gesto, cái. O estrondo de um peso morto em queda, pela vertigem da fuga, um regresso nunca feito e um mar nunca bebido. Num só instante um tiro de memórias que atravessa a retina. O estrondo, o estrondo que se prevê depois da queda, mais perto, um segundo e o impacto, o impacto. Quebram-se todos os ossos num só momento, e de um trago instala-se o silêncio.

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