sábado, novembro 26, 2005

º Insónia negra cinzenta azul º

Pânico. Frio. Caos. O barulho ensurdecedor das ruas. À noite. Os últimos dias de Novembro.
Desolação, é a palavra que se arrasta na calçada, na cadeira onde me sento e páro, a palavra que se arrasta pelo meu corpo.
Desolação, hoje sou eu o teu mártir, um farrapo atirado contra as lâminas do tempo. O tic tac das horas a ameaçar parar de súbito para me esmagar.
Noites escuras de inverno deitadas à minha cabeceira a gemer-me ao ouvido para que não durma.
Insónia. O visão de tudo o que me escapa.
Insónia silenciosa e mortífera, negra cinzenta azul, um retalho de pedacinhos de vidro moído que trago debaixo da língua.
Uma manta, o pó das coisas. Levanta-se um gesto, cái. O estrondo de um peso morto em queda, pela vertigem da fuga, um regresso nunca feito e um mar nunca bebido. Num só instante um tiro de memórias que atravessa a retina. O estrondo, o estrondo que se prevê depois da queda, mais perto, um segundo e o impacto, o impacto. Quebram-se todos os ossos num só momento, e de um trago instala-se o silêncio.

terça-feira, novembro 22, 2005

º Eu não sou eu, sou muitas de mim [captação III] º

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Dezembro de 2003, Agito - Bairro Alto - Lisboa
Paz sem voz não é paz: É medo.

segunda-feira, novembro 21, 2005

º Mais nada º

Procura-se personagem estranha e complicada como eu para passar as noites escuras e as manhãs chuvosas e cinzentas de Inverno.
Procura-se quem me convide a ficar sem supostos nem pressupostos. Procura-se quem não me faça perguntas e me queira ter enrolada à volta do peito em silêncio, sem porquês, só porque se sente assim e pronto.
Procura-se alguém que tenha a rara capacidade de me anestesiar esta solidão inexplicável com que nasci, que me faça sorrir apesar de tudo e a quem eu consiga também aliviar a dor pela minha presença, pelas minhas mãos, pelo meu abraço. Mais nada.

quarta-feira, novembro 16, 2005

º Absurdo º

Fascínio pelo absurdo. Vai e vem devagar. Não há nada na rigidez do meu rosto que me denuncie. Só um certo pousar errante, um micro segundo mais longo, no objecto do desejo me denunciaria houvesse quem o conseguisse distinguir do meio do caos dos meus olhos.
Não tenho pressa. Quero sentir o embate a chegar, a instalar-se e a alastrar por baixo da pele.
Não espero nada. Tenho na espinha as marcas duras das minhas próprias fantasias.
Não quero saber se vai doer ou aconchegar, quero apenas que se entranhe em mim.
Não quero fazer perguntas. Quero só ficar em silêncio, fazer-me entender assim sem palavras.
Não tenho pressa do fascínio pelos versos absurdos que repousam nos meus lábios que se fazem arder, outra vez.

terça-feira, novembro 15, 2005

º O que resta em nós? º

« Mas para ti...» dizes tu, e interrompes a frase a meio. Não queres dizer o que na verdade pensas e assim calas a frase bruscamente. Eu já te ouvi, e já sei o que queres dizer e já discuti até à exaustão que sou mais sensível do que julgas. Estou cansada e triste e hoje quando penso em ti sinto uma vontade dolorosa de chorar. (Sim, de chorar porque eu também choro) Talvez fosse mais fácil, soubesses tu que da mesma forma que são os outros capazes de te magoar, podes tu também magoar os outros, em proporções e doses semelhantes. Para magoar alguém não é necessário fazer algo. Pode-se ferir muito mais pelo que não se faz do que pelo que se faz. Já dizia alguém que li à tempos, "vê-se o que há atravês do que não há". Dispendo mais energia a tentar compreender-te sempre e incontornávelmente do que a tentar curar as feridas que vais deixando. Assim, com o passar do tempo, foram ficando mágoas que ponho de lado para continuar contigo e não olhei nunca para trás. Tinha a certeza que o caminho era permaneceres na minha vida como algo belo e singelo de um percurso difícil.
Entretanto, um ano e dois meses e muitos dias depois o que resta em nós é mágoa e silêncio.
Assim hoje quero desaparecer, sair de mim e abandonar-me à mais soberba perdição. Que assim já não restará nada mais para dizer «...foi assim...»

quinta-feira, novembro 10, 2005

º Eu não sou eu, sou muitas de mim [captação II] º

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Setembro 2005

quarta-feira, novembro 09, 2005

º Eu não sou eu, sou muitas de mim [captação I] º

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Foto de Carla S. D. V.

segunda-feira, novembro 07, 2005

º Deixa-te morrer º

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Encontrei-me sozinha na rua. Ouvi um vagabundo dizer:
- o mundo é tudo azul se assim o quiseres. Tens na ponta dos dedos o cigarro que seguras com firmeza, pensas tu que não tens nada mais. Tens em cima da mesa onde te sentas um copo de vinho vermelho rubro, e pensas tu que é sangue que bebes. Mas que sabes tu, ó personagem de tuas próprias tragédias, do sangue que te corre por dentro? Agarras uma caneta como quem se agarra à vida, julgas que podes imprimir a mágoa e o amor num pedaço de papel. Mas que sabes tu da mágoa roxa da poesia? Tens nos teus olhos uma infinita fonte de saudade, de angústias, pensas que é neles que vais sepultando a vida, mas que sabes tu da insónia de não se saber ser?
Deixa-te morrer, deixa. Devagar, ao som de um tango.

sábado, novembro 05, 2005

Eu sei.

sexta-feira, novembro 04, 2005

º Meu nome é... º

Olá,
meu nome é paixão
venho visitar-te às escondidas
devagarinho para que não dês por mim
a tactear devagar até às tuas costas e
abraçar-te assim
da cintura à curva do pescoço e
à extremidade de tuas mãos

vou sussurar-te
que meu nome é paixão e
vim ver-te pela madrugada
para te trazer insónia
daquela que não diz o nome
tu sabes
que se te aperto no regaço
transbordas

meu nome é paixão
meu nome é paixão
meu nome
É
paixão

º Um pouco de céu º

Só hoje senti que o rumo a seguir levava pra longe senti que este chão já não tinha espaço pra tudo o que foge não sei o motivo pra ir só sei que não posso ficar não sei o que vem a seguir mas quero procurar
e hoje deixei de tentar erguer os planos de sempre
aqueles que são pra outro amanhã que há-de ser diferente não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu é que hoje parece bastar um pouco de céu um pouco de céu
só hoje esperei já sem desespero que a noite caísse nenhuma palavra foi hoje diferente do que já se disse e há qualquer coisa a nascer bem dentro no fundo de mim e há uma força a vencer qualquer outro fim
não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu é que hoje parece bastar um pouco de céu um pouco de céu
só hoje esperei já sem desespero que a noite caísse nenhuma palavra foi hoje diferente do que já se disse e há qualquer coisa a nascer bem dentro no fundo de mim e há uma força a vencer qualquer outro fim
não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu é que hoje parece bastar um pouco de céu um pouco de céu
Mafalda Veiga