quinta-feira, outubro 20, 2005

º Sem título º


a cinza cai como prata sobre os seus ombros. ri-se um pouco. balouça. delira enquanto geme que a terra não tem corpo. o tempo faz-lhe rugas imperceptíveis no rosto. o baloiço ainda está ali, e ela com ele, e o balouçar. a fragilidade tem o sabor do desejo. seria fácil querer tocar-te agora. era como mergulhar da prancha mais rente à tona da água. os desafios nunca se tecem em saltos que não podem ter uma queda vertiginosa. são como o tempo, quer engolir-nos o mais fundo possível. tal qual os rios, é fácil vê-los transbordar. o difícil é atravessá-los. podia escrever uma melodia com o estalar dos sentidos, e serias tu a iluminá-la, tão breve nos teus segredos, tão longe dos teus desejos. podias ser uma só e eu apenas água, ou mais que nada, só um pouco mais que tudo, sei lá, e tudo se confundiria num véu de cor e fogo. não, não seria fogo, apenas incandescência e o fogo seria o meu cérebro a ateà-lo, afinal o fogo também se acende espontâneo e ninguém o espera mas muitos são os que o conhecem, e tu podias dar-mo a conhecer e eu fingidora provà-lo-ia como da primeira vez, e que mentira é, de facto, mas tu também fingirias, e eu sabê-lo-ia e tu também, mas assim amarradas a um tronco sem pés quem sabe onde começa e termina um novelo? não, não vamos falar de memórias, elas trazem sempre feridas escondidas nas palmas da mão e quando fechas os olhos abraçam-se à tua face e mancham-te de sangue. às vezes escrever dói. é como arrancar crostas às feridas, tal qual arrancar recordações aos farrapos do nosso corpo. dói mesmo.

2 comentários:

Oscar disse...

- Mas, faz isso, escreve tu um outro novelo, e reinventa o jogo da vida.

Pequenos Nadas disse...

o que fazer com as memórias? O problema é que a muitas vezes sabemos como desembaraçar o novelo e não temos forças para o fazer. Antes o novelo do que o vazio de não haver novelo...Beijos