terça-feira, outubro 11, 2005

º Exercício de auto-estima º

Olho para a palma da minha mão: na pele pequenas linhas multiplicam-se pela sua superfície e formam pequenos veios que se espalham em torno dos dedos como aneis. Analiso as linhas, a cor da pele, a sua textura, a sua flexibilidade. Abro e fecho os punhos, estendo as costas das mãos à minha frente, à altura dos olhos de forma simétrica e faço-as girar em sincronia alguns graus tendo como eixo um ponto imaginado no espaço. Observo atentamente os nós dos dedos, as veias, as marcas de tendões e as unhas. Levo esta inspecção ao pormenor. Hoje não tenho quaisquer feridas ou cicatrizes nas mãos, de modo que a pele parece estender-se como um todo, sem vermelhidões ou interrupções. Olho os ossos que se adivinham por baixo. Não rôo as unhas e tenho-as cortadas curtas. A forma das palmas das mãos é ligeiramente quadrada mas alongada, de dedos finos e esguios. Tenho um sinal na palma da mão direita, um nas costas da mão esquerda, outro no dedo anelar da mesma mão.
Quando era pequena custumavam dizer-me na escola que tinha mãos de lavrador. Suponho que pretendiam com isso um insulto, talvez por essa razão cresci com um certo embaraço pelas minhas mãos. Ganhei o hábito das esconder nas mangas das camisolas e casacos. Debaixo da mesa do bar, nos bolsos das calças. É curioso como pequenos embararços de criança crescem com as pessoas e as seguem vida fora, ao ponto de já não sabermos exactamente o porquê de certos hábitos e manias, de sabermos apenas que sentimos assim e pronto.
Por isso talvez hoje dei comigo a olhá-las somente com os meus olhos. E finalmente achei-as gentis e gostei delas.

2 comentários:

Oscar disse...

Talvez o mesmo tenha se passado com o meu nariz, muito mal estimado na infância por alguns de meus colegas. Desconfio que a sua origem africana era um incômodo aos meus colegas. Hoje, o meu nariz tem a dignidade de contar a minha ancestralidade aos mais sensíveis, e me orgulho dele, e nos meus delírios nocturnos, às vezes, como num conto de Gógol, vejo-o correndo pelas savanas ou florestas de uma África perdida no tempo: "Aquele é o meu nariz, o perseguidor."

Pequenos Nadas disse...

só se for um lenhador pianista ou com alma de pianista...tb já ouviste muitos elogios às tuas mãos...Bom exercício!