domingo, setembro 11, 2005

º Literatura revisitada: Uma História de Amor Como Outra Qualquer de Lúcia Etxebarría º

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Mais uma leitura arrancada às minhas noites brancas de insónia. 15 contos que nos trazem histórias que podiam ser as nossas. Histórias de abandono, de confiança, de desespero, de alegria ou de solidão. De pessoas como tu e eu. Pessoas como outras quaisquer. O que me fascina na prosa de Etxebarría é a sua escrita crua, despida de pudores, por vezes de uma simplicidade banal mas nunca vulgar. Uma capacidade deliciosa de nos fazer rir da miséria humana. De a apresentar com dignidade e como uma realidade, mas não dramaticamente como um fim.
Divertido e comovente. Belo e vertiginoso. Aqui ficam algumas citações escolhidas por mim.

«A minha mãe era uma senhora tão fria que parecia conservada em gelo, na atmosfera gelada da sua vida irrepreensível como dizem que se mantêm os corpos que se encontram nos glaciares.»

«[...] era mercadoria de saldo, usada, uma coisa para utilizar como alívio nas noites de bebedeira, mas não uma rapariga pela qual alguém se pudesse apaixonar.»

«Ela sentiu-se mal, mas não por ele, por si própria. Só queria que aquele momento acabasse, beber aquele cálice amargo de uma vez por todas. [...] Quase o odiou por ser tão bom, por aceitar tudo com tanta elegância, por ser, inclusive, capaz de encontrar algo agradável na forma de abordar a ruptura, por a fazer sentir, por contraste, tão má e desprezível.»

«Agora era livre. para o bom e para o mau. Para o prazer e para a culpa.»

«Adeus Gael, guarda esses lábios para o caso de eu voltar no próximo Verão, disse-lhe sem o dizer, mais para mim própria, porque acabava de descobrir que existe um sentimento humano mais poderoso do que a obcessão. O orgulho.»

« [...] quem ama não humilha o seu parceiro, nem o assedia, nem o faz sofrer. [...] porque ver-me sofrer o fazia sentir seguro e superior ou, pelo menos, mais forte.»

«Tinha criado um fantasma. A minha relação estava morta mas não enterrada, porque me empenhara em maquilhá-la e em tentar dar um aspecto de vida ao cadáver, como o empregado da agência funerária que enfeita um morto para que os seus entes queridos possam conservar, até ao último momento, a ilusão de que o defunto não partiu de todo. E, de imediato, todo o futuro se apresentou, perante os meus olhos, como um baralho de cartas de tarot espalhadas sobre uma mesa e, percorrendo o seu interminável vazio, deparou-se-me a mulher consumida que iria viver nele, a pessoa azeda em que já me estava a transformar, a que iria morrer em vida porque não encontrava forças para deixar o homem que a ia envenenando lentamente.»

«Existia um contraste enorme entre aquele exterior festivo, transbordante de danças e música e movimentos e risos, e o que ela sentia, uma estranha modorra que a paralisava, um sono que não dormia, que se pousava nas pálpebras sem as fechar, um estar ali sem estar.»

«De qualquer modo pouca importância tinha o que se falava, se o que verdadeiramente conta é o que se cala. Vemos o que há a partir do que não há.»

« [...] no amor, e no Jazz, o prazer depende da surpresa, do inesperado, do improviso. O momento sublime de um concerto ou de uma relação é precisamente esse em que tudo se desmorona, em que o prevísivel se torna imprevisível, e é então que se realizam as harmonias e os actos que, segundos antes, eram inimagináveis.»

« [...] paixões consumadas, paixões consumidas [...]

« [...] sai-me pela frente uma casa asquerosa, com tanta merda, digo-te, que nem com uma pá a apanhavas.» Não resisti a citar isto. Obviamente não pela sua qualidade literária mas porque foi um momento de leitura tão insólito que comecei a rir sozinha, compulsivamente no meio do autocarro, para espanto dos outros ocupantes, a chorar de rir de tão cómica se me assomou a imagem

«Mas não me suicidei. Não tinha coragem para o fazer, e para morrer não basta desejá-lo. Tu queres morrer mas o teu corpo empenha-se em ir em frente.»

«Por isso prefiro morrer por uma coisa justa, sobretudo num mundo onde imperam a sem-razão, a injustiça, a lei do mais forte. Um mundo que se erge sobre sangue, governado pelos néscios e pelos cruéis com engano sobre engano, um mundo que a desolação agita de ódio em ódio, um mundo que adora a riqueza e destrói os que cantam, um mundo em que há vidas de primeira e de segunda categoria, um mundo em que uma vida pode valer menos que um barril de petróleo. Palestinianos, iraquianos, saúris: todos sacrificados à mesma paixão, a paixão do Ocidente pelo ouro negro.»

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