quarta-feira, setembro 28, 2005

º Mosaico para um domingo sem ti º

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É aos domingos que sinto a tua falta.
Toda uma panorâmica de paredes e tectos caídos amanhece comigo ao ritmo preciso de um calendário de parede. Lembro-me que um dia, angustiada, procurei um calendário com seis dias apenas. Outro, recortei do calendário pequenos quadrados de papel nos domingos e montei com eles um retalho de mosaico fúnebre para tentar enganar o tempo. Devo confessar que falhei estrondosamente.
Assim, é ao domingo que sinto a tua falta.
Em cada quadradinho de papel pintei uma cruz, juntei-os e colei-os numa tela de tonalidade azul-cinzenta que pintei a acrílico. Chamei-lhe mosaico-para-um-domingo-sem-ti e de seguida pendurei-o contra a parede, ao lado do agora retalhado calendário.
Hoje, quando o olho vejo nele o reflexo daqueles domingos em que acordávamos de manhã e o mundo era todo nosso. Sentávamo-nos à mesa a tomar café e a falar de coisas banais. Depois eu ligava a música e fumavamos no pátio. Tu contavas-me histórias, e depois eu e assim entardecíamos ainda de pijama no corpo. Depois, eu fazia sumo de groselha com hortelã e deitava-me no teu sofá, ao teu lado, pipocas doces para ti, salgadas para mim e víamos um filme de um qualquer realizador asiático, e eu chorava no fim e depois adormecia abraçada a ti. Tu tiravas-me fotografias no meu sono, e de seguida adormecias também. Quando acordávamos era noite cerrada, fosse verão ou inverno, e eu tirava o pijama e tu também e corríamos para o cais para ver a lua no rio. Passavam-se horas assim. Quando voltávamos eu virava a página de um calendário de mesa, despreocupadamente como se o tempo não pudesse acabar nunca.

para a Ângela, com amor.

º Citação apropriada º

Hoje de manhã, no autocarro a atravessar a ponte li:
«Esteve a chorar, os olhos ainda não sabem mentir. Dói-lhe qualquer coisa muito fundo, uma coisa que tem a ver com a falta de amor, a violência da vida.» (Pedro Paixão, Saudades de Nova Iorque)
... e lembrei-me de ontem, como faltei às aulas da manhã depois de ter terminado de ler, também no autocarro, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres de Clarice Lispector. Fiquei de tal modo angustiada que incapaz de não chorar e envergonhada pela minha própria condição me fui esconder na serenidade dos jardins da Gulbenkian. E mal me recomponha por momentos, levantava-me e seguia Av. Berna acima para a faculdade, voltando para trás, qual barata tonta, lavada em lágrimas de novo.
Não, não eram lágrimas de tristeza. Do que eram não sei. Chamei-lhes lágrimas, só.
Obrigada Oscar.

sábado, setembro 24, 2005

º Amor, de que é feito o coração? º

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Efémero.
Assim é teu
coração
feito de iodo e
sal
uma mão cheia
de risos
roubados sem remorso.

Estanque.
Assim restou meu
coração
feito de pérolas imperfeitas e
castelos de areia e
conchas
do mar
teu.

[...]

Meu desejo são castelos de areia que
arrasas devagar
tragados pelo mar.

Vou reconstruindo o que tu vais
destruindo,
talvez traga a areia da praia
para longe
do mar
e
recomece.

quinta-feira, setembro 22, 2005

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As árvores morrem de pé.

sexta-feira, setembro 16, 2005

º Rainha de espadas, rainha de copas º

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ela disse: o teu corpo cheira a àgua salgada. Tens na superfície da pele os traços invisíveis de mares inteiros que bebeste.
eu disse: do meio de um baralho de cartas tiro a rainha de espadas. A ponta de sua lâmina é de dois gumes, rasga assim as noites claras das marés.
ela disse: o teu corpo é feito de àgua salgada, trazes na pele os estilhaços minúsculos e precisos da lâmina contra as rochas com as quais embateste.
eu disse: do meio de um baralho de cartas tiro a rainha de copas. O vermelho de seus lábios é rubro e doce como o sangue que espalha impiedosa pelo mar. Salgado.

segunda-feira, setembro 12, 2005

º Se tudo isto fosse uma Polaroid º

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Faço um esforço por te compreender. Não tenho de te compreender. «Pára!». Levanto-me, vou fumar um cigarro. Peço outro vodka e bebo-o de forma pesada e solene.
Alienação.
Dou comigo a perder a noção de que estás na mesma sala, fico absorta com um ponto qualquer na tinta lustrusa da parede. Vermelha.
Passas-me um cigarro que não pedi, dizes qualquer coisa que se afoga no emaranhado da música e das pessoas e do barulho de copos nas mesas e no balcão.
Alienação. Hoje a roupa que visto nem parece ser a minha.
Lá estás tu a levantar-te, rodopias sobre ti própria, procuras mais um copo com alcóol, ris-te muito, falas com toda a gente. Já não te (re)conheço.
Alienação. Estou muito pedrada e ébria, e isso que importa?
Mantenho a compostura, estou direita, pernas cruzadas sobre a cadeira, falo pausadamente, ondulo ao som da música.
Alienação. Por vezes a visão fica-me turva, tenho de semi-cerar os olhos, concentrar-me e abri-los com força.
Olho para a cadeira à minha frente, está vazia. Não me apercebi de te teres levantado, esqueci-me da tua posição no espaço, da tua presença.
Alienação. Perdi o mapa com as linhas da tua latitude e longitude, coordenadas trocadas e abandonadas.
Tenho medo de que o meu cérebro te esteja a apagar da realidade como aqueles recortes que se fazem nas fotografias para excluirmos as elementos que não pertencem.
Se tudo isto fosse uma polaroid de grandes dimensões estaria uma mancha no teu lugar, indefinida, resultado de defeito de fabrico de um qualquer químico de revelação.
Alienação. Parece que se passou tanto tempo. Meses, anos, séculos.
Tenho inscrita na palma da minha mão a minha própria perdição. Se a única forma de te me alienar completamente for eu mesma desaparecer, falo-ei.

domingo, setembro 11, 2005

º Literatura revisitada: Uma História de Amor Como Outra Qualquer de Lúcia Etxebarría º

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Mais uma leitura arrancada às minhas noites brancas de insónia. 15 contos que nos trazem histórias que podiam ser as nossas. Histórias de abandono, de confiança, de desespero, de alegria ou de solidão. De pessoas como tu e eu. Pessoas como outras quaisquer. O que me fascina na prosa de Etxebarría é a sua escrita crua, despida de pudores, por vezes de uma simplicidade banal mas nunca vulgar. Uma capacidade deliciosa de nos fazer rir da miséria humana. De a apresentar com dignidade e como uma realidade, mas não dramaticamente como um fim.
Divertido e comovente. Belo e vertiginoso. Aqui ficam algumas citações escolhidas por mim.

«A minha mãe era uma senhora tão fria que parecia conservada em gelo, na atmosfera gelada da sua vida irrepreensível como dizem que se mantêm os corpos que se encontram nos glaciares.»

«[...] era mercadoria de saldo, usada, uma coisa para utilizar como alívio nas noites de bebedeira, mas não uma rapariga pela qual alguém se pudesse apaixonar.»

«Ela sentiu-se mal, mas não por ele, por si própria. Só queria que aquele momento acabasse, beber aquele cálice amargo de uma vez por todas. [...] Quase o odiou por ser tão bom, por aceitar tudo com tanta elegância, por ser, inclusive, capaz de encontrar algo agradável na forma de abordar a ruptura, por a fazer sentir, por contraste, tão má e desprezível.»

«Agora era livre. para o bom e para o mau. Para o prazer e para a culpa.»

«Adeus Gael, guarda esses lábios para o caso de eu voltar no próximo Verão, disse-lhe sem o dizer, mais para mim própria, porque acabava de descobrir que existe um sentimento humano mais poderoso do que a obcessão. O orgulho.»

« [...] quem ama não humilha o seu parceiro, nem o assedia, nem o faz sofrer. [...] porque ver-me sofrer o fazia sentir seguro e superior ou, pelo menos, mais forte.»

«Tinha criado um fantasma. A minha relação estava morta mas não enterrada, porque me empenhara em maquilhá-la e em tentar dar um aspecto de vida ao cadáver, como o empregado da agência funerária que enfeita um morto para que os seus entes queridos possam conservar, até ao último momento, a ilusão de que o defunto não partiu de todo. E, de imediato, todo o futuro se apresentou, perante os meus olhos, como um baralho de cartas de tarot espalhadas sobre uma mesa e, percorrendo o seu interminável vazio, deparou-se-me a mulher consumida que iria viver nele, a pessoa azeda em que já me estava a transformar, a que iria morrer em vida porque não encontrava forças para deixar o homem que a ia envenenando lentamente.»

«Existia um contraste enorme entre aquele exterior festivo, transbordante de danças e música e movimentos e risos, e o que ela sentia, uma estranha modorra que a paralisava, um sono que não dormia, que se pousava nas pálpebras sem as fechar, um estar ali sem estar.»

«De qualquer modo pouca importância tinha o que se falava, se o que verdadeiramente conta é o que se cala. Vemos o que há a partir do que não há.»

« [...] no amor, e no Jazz, o prazer depende da surpresa, do inesperado, do improviso. O momento sublime de um concerto ou de uma relação é precisamente esse em que tudo se desmorona, em que o prevísivel se torna imprevisível, e é então que se realizam as harmonias e os actos que, segundos antes, eram inimagináveis.»

« [...] paixões consumadas, paixões consumidas [...]

« [...] sai-me pela frente uma casa asquerosa, com tanta merda, digo-te, que nem com uma pá a apanhavas.» Não resisti a citar isto. Obviamente não pela sua qualidade literária mas porque foi um momento de leitura tão insólito que comecei a rir sozinha, compulsivamente no meio do autocarro, para espanto dos outros ocupantes, a chorar de rir de tão cómica se me assomou a imagem

«Mas não me suicidei. Não tinha coragem para o fazer, e para morrer não basta desejá-lo. Tu queres morrer mas o teu corpo empenha-se em ir em frente.»

«Por isso prefiro morrer por uma coisa justa, sobretudo num mundo onde imperam a sem-razão, a injustiça, a lei do mais forte. Um mundo que se erge sobre sangue, governado pelos néscios e pelos cruéis com engano sobre engano, um mundo que a desolação agita de ódio em ódio, um mundo que adora a riqueza e destrói os que cantam, um mundo em que há vidas de primeira e de segunda categoria, um mundo em que uma vida pode valer menos que um barril de petróleo. Palestinianos, iraquianos, saúris: todos sacrificados à mesma paixão, a paixão do Ocidente pelo ouro negro.»

sábado, setembro 03, 2005

º Ah! esta alegria de viver! º

"Provo...............................................
Que a mais alta expressão
da dor.......
Consiste essencialmente
na alegria..."

Augusto dos Santos