segunda-feira, agosto 15, 2005

º Cuspi sangue sobre o teu nome º

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Escrevo-te para te confessar da minha vida o que ainda não te disse. Que das formas todas de comunicar, foi na escrita que encontrei o meu melhor instrumento. Sei que da caneta e do papel escorrem mais palavras que da minha boca. Mas eu não sei falar de mim. Não falo, escrevo. Não falo, toco.
Sempre me senti mais confortável no meio dos meus próprios livros, discos, cigarros e poemas do que deitada na tua cama. Isto não quer dizer que prefiri a minha solidão à tua companhia, não me interpretes mal. O que quero dizer é que na tua cama dançavam as tuas paixões, as tuas fantasias, os teus medos, as tuas fugas e, claro, também as tuas amantes. Assim, talvez por isso, nunca me senti em casa na tua cama mas sempre uma intrusa. Ou mais um corpo nu, pressionado contra as paredes do quarto, contra o tecto e os móveis e o soalho e a tua plácida misantropia.
Tenho de te confessar, traí-te tantas vezes que não poderia mais precisar-te com exactidão quantas vezes o fiz. Deitei-me com a a tua ausência e abracei-me a ela. Beijei-a e acariciei-a, e falei-lhe da minha vida e das minhas aspirações mais profundas. Falei-lhe de nós e dos nossos segredos. Contei-lhe histórias para crianças e chorei-lhe no colo mil vezes. Quando acordava de manhã, tinha-a entre os braços e apertava-a com mais força para me convencer que ali estava. Passei com ela - a ausência - incontáveis noites em claro, li-lhe poemas e cheirei-lhe a pele e fiz-lhe cócegas. Fiz-lhe também silêncio, daqueles enormes a arrastar-se, corrosivos como o ácido.
Sim, tinha de te confessar: traí-te. Enquanto te traí suportei com elegância a tua melancolia infinita, como quem veste um belo fato num dia de festa mas recusa a rosa que lhe dão para enfeitar o bolso porque este tem o fundo roto. Enquanto te traí trouxe sempre comigo, também, uma pequena lámina aguçada, fina como a malha de um collant, com a qual me apunhalei voluntariamente só para sentir os sentidos a funcionar.
Acabei no entanto por despenhar-me com violência no abismo dos mal amados, e partir cada osso do meu corpo contra o chão do desencanto. Vim, despenhando-me aos bocados, abismo abaixo, ora estatelando-me contra uma rocha, ora rebolando e caindo um pouco mais só para me estatelar novamente noutra rocha. Até ao chão, o fundo do abismo, até à saudade desmedida, insuportável.
Quer me acredites quer não, conservei sempre comigo um sorriso durante a queda. Penso que ao ser concebida me concederam o dom do perdão e da compreensão e da gentileza infinita. Porém não me concederam o dom do esquecimento da memória. De que servirá a alguém a gentileza infinita se não se lhe se esfuma também, entre as mãos, o passado?
Tornei-me perita em perguntas sem resposta, em mil e um artificios de produzir silêncio. Criei monstros e fantasmas para me atormentar de noite e carrosséis e fitas coloridas para me agitar o dia. Bebi alcoól até me arder o estômago e fumei até me doerem os pulmões. Dancei e chorei até me latejar o corpo, violentei a alma até a partir ao meio. Cuspi sangue sobre o teu nome. Um dia, por fim explodi e desfiz-me em cinzas. E o vento varreu-me do chão e eu desapareci.
Concluí que mudaste irremediavelmente a minha vida e a mim mesma.
E tu? Tu continuarás a chafurdar na tua amargura e azedume e hás-de esquecer-me pelo prazer doutro corpo. O sorriso enigmático que me acompanha - aquele que me repetias não saber descodificar - dou-to como fruto maduro da minha paixão, acabado de se soltar do galho e embater contra o chão para em breve se desfazer.
Enquanto fecho as persianas do meu quarto, acendo um cigarro e devagar desfolho mais uma noite de insónia.

1 comentário:

Oscar disse...

Posso te compreender na trajectória da queda, é vertiginosa, eu sei, e inevitável. Cair todos o fazem, é da natureza humana. Mas cair assim, dessa forma, é para somente alguns desvalidos: NÓS.

Com um beijo,

Oscar