sexta-feira, julho 22, 2005

º O passado é um lugar estranho º

Escreveste-me uma carta que me deixaste em cima da cabeceira. Soube logo que era tua e que se dirigia a mim. Trazes contigo os mesmissímos hábitos de sempre. Por essa razão talvez me sentava contigo à mesa e fazia autênticos diálogos em silêncio que precediam por segundos o teu próprio discurso. Adivinhava que a seguir te levantavas, arrumavas o prato nesta posição, a cadeira naquela, que te encostavas à janela com esse ar irado de quem perdeu à muito a capacidade de se amar a si próprio. Tinhas um padrão de comportamento diabólicamente metódico, estudado, complexo e eficaz. Creio que a grande parte das vezes me venceste pela exaustão. Lembro-me também que ao fim de horas sentia qualquer sentimento familiar com o desespero que me fazia chorar. E lá estavas tu mais uma vez, com o teu sorriso triunfal e depois esse olhar reprovador. «Pára de chorar, incomodas-me». Não sei quantas vezes tive vontade de te deixar logo ali, sozinha. Perdi a conta das vezes que bati com a porta, cheia de raiva e caos a aquecer-me por dentro até finalmente rebentar. Rebentei sempre sozinha porque criei este instinto de protecção para contigo. Não queria a minha ira colidisse contigo, evitei sempre esse confronto em contra-mão.Lembro-me de te repetir vezes sem conta que não gritasses comigo. Dizias que querias ver-me perder a cabeça, ver-me a orquestrar como tu uma cena afinada de humilhação. Foi esta a única linguagem que percebeste claramente, com a maior nitidez. esta foi sempre a tua lingua materna. Ah! ... eu falei sempre uma língua estrangeira contigo. E mesmo assim, continuámos. Um dia, lembro-me bem, senti-me sair de mim. Não sei se existirá alguma razão lógica que me explique, mas sei que deixei de ser eu. Absorvi do teu veneno meses a fio, sem me dar conta. E um dia, já não era eu, era já o monstro dos meus restos mortais. Lembro-me de subitamente subir a mim um ódio que nunca tinha provado, e gritei, gritei gritei contigo até descarregar todo o veneno que trazia comigo. Foi nessa altura que me compreendeste por fim, pois foi nessa altura a primeira vez que vi em ti uma expressão nova. Ficaste pálida e silenciosa, os olhos pregados com espanto em mim. E quando terminei ficaste muda e imóvel, os teus gestos traíram-te e deixaste-te invadir de um estranho pânico. E só te ouvi falar quando saí do quarto directa á porta, directa ao mundo sem ti. «Não te vás embora», foi o que tu disseste.
E eu já tinha saído, já tinha saído.

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