terça-feira, julho 26, 2005

º O asfalto revisitado º

Sempre gostei de viajar. Trazer comigo a mochila às costas. Um casaco para a noite, os cigarros, uma máquina fotográfica. Um bloco de notas e um livro. Canetas e lápis mais do que preciso. Uns óculos de sol. Uma série de inutilidades que acho que sempre úteis. Um lenço indiano e uma agenda do SOS racismo. Uma polaroid tirada numa noitada. E a estrada. Fascinam-me as placas da estrada com direcções e indicações sempre diferentes, cidades vilas e aldeias. Os postos de serviço à beira da estrada. 100, 200, 300 kilómetros, o asfalto revisitado. Encho-me do mundo o mais que posso. E depois, recomeço. Descobri que sou uma romântica viajante, não consigo separar-me das memórias dos sítios que visitei. Amanhã parto novamente.

domingo, julho 24, 2005

º O caos tem banda sonora º

Sinto-me claustrofóbica em espaços pequenos e cheios de gente e barulho. São os corpos e rostos diferentes a misturar-se e a mexer-se sem ordem nem compasso, são as palavras e as frases e as conversas inteiras a cruzar-se e entrecruzar-se como fios intermináveis de um enorme novelo desalinhado. E a música? Toca incessantemente por cima de todo o barulho e movimento, ninguém a ouve e ninguém passa sem ela.
Afinal o caos tem banda sonora.

sexta-feira, julho 22, 2005

º O passado é um lugar estranho º

Escreveste-me uma carta que me deixaste em cima da cabeceira. Soube logo que era tua e que se dirigia a mim. Trazes contigo os mesmissímos hábitos de sempre. Por essa razão talvez me sentava contigo à mesa e fazia autênticos diálogos em silêncio que precediam por segundos o teu próprio discurso. Adivinhava que a seguir te levantavas, arrumavas o prato nesta posição, a cadeira naquela, que te encostavas à janela com esse ar irado de quem perdeu à muito a capacidade de se amar a si próprio. Tinhas um padrão de comportamento diabólicamente metódico, estudado, complexo e eficaz. Creio que a grande parte das vezes me venceste pela exaustão. Lembro-me também que ao fim de horas sentia qualquer sentimento familiar com o desespero que me fazia chorar. E lá estavas tu mais uma vez, com o teu sorriso triunfal e depois esse olhar reprovador. «Pára de chorar, incomodas-me». Não sei quantas vezes tive vontade de te deixar logo ali, sozinha. Perdi a conta das vezes que bati com a porta, cheia de raiva e caos a aquecer-me por dentro até finalmente rebentar. Rebentei sempre sozinha porque criei este instinto de protecção para contigo. Não queria a minha ira colidisse contigo, evitei sempre esse confronto em contra-mão.Lembro-me de te repetir vezes sem conta que não gritasses comigo. Dizias que querias ver-me perder a cabeça, ver-me a orquestrar como tu uma cena afinada de humilhação. Foi esta a única linguagem que percebeste claramente, com a maior nitidez. esta foi sempre a tua lingua materna. Ah! ... eu falei sempre uma língua estrangeira contigo. E mesmo assim, continuámos. Um dia, lembro-me bem, senti-me sair de mim. Não sei se existirá alguma razão lógica que me explique, mas sei que deixei de ser eu. Absorvi do teu veneno meses a fio, sem me dar conta. E um dia, já não era eu, era já o monstro dos meus restos mortais. Lembro-me de subitamente subir a mim um ódio que nunca tinha provado, e gritei, gritei gritei contigo até descarregar todo o veneno que trazia comigo. Foi nessa altura que me compreendeste por fim, pois foi nessa altura a primeira vez que vi em ti uma expressão nova. Ficaste pálida e silenciosa, os olhos pregados com espanto em mim. E quando terminei ficaste muda e imóvel, os teus gestos traíram-te e deixaste-te invadir de um estranho pânico. E só te ouvi falar quando saí do quarto directa á porta, directa ao mundo sem ti. «Não te vás embora», foi o que tu disseste.
E eu já tinha saído, já tinha saído.

º Raiva II º

"Something in you caused me to,
Take a new tact with you,
You were going through something,
I had just about scraped through
Why do you think I let you get away, With the things you say to me?,
Could it be I like you, It's so shameful of me, I like you
No one I ever knew or have spoken to,
Resembles you,
This is good or bad, all depending on,
My general mood
Why do you think I let you get away, With all the things you say to me?,
Could it be I like you, It's so shameful of me, I like you
Magistrates who spend their lives, Hiding their mistakes
They look at you and I, and, Envy makes them cry, Envy makes them cry"

Morrissey - I Like You

quarta-feira, julho 20, 2005

º Viajar cura a melancolia º

"Um dia li num livro: «viajar cura a melancolia».
Creio que, na altura, acreditei no que lia. Estava doente, tinha 15 anos. Não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela ideia de que lera uma predestinação."

Al Berto - "Aprendiz de viajante" O Anjo Mudo

terça-feira, julho 19, 2005

º Raiva I º

You shut your mouth
how can you say
i go about things the wrong way?
I am a human and i need to be loved
just like everybody else does

The Smiths - How soon is now?

segunda-feira, julho 18, 2005

º Finally we are no one º

" he grabbed my thumb and led me away from the accident.
there was no point in watching any more, still i was reluctant to move. «we have to go find the others» he said. he never looked straight at me. we walked in the grass, around the shack and down to the stream. for some reason, i had never walked down there before. we went into a concrete tunnel, dark but warm. a part of a noise was leaking from the ceiling. now there was that music again. he sat down and heard me do the same. «finally we are no one» he said."
Múm

domingo, julho 17, 2005

º "I am so sad / i don't know why" º

Hoje vou chorar até partir a alma. E amanhã não sei, perdi a vontade de querer pensar no futuro com muita seriedade. Quer pensemos quer não ele encontra-nos na mesma.
Vou chorar até partir a alma. E amanhã não sei.
O futuro há-de esbarrar comigo, outra vez.

segunda-feira, julho 11, 2005

º Sem título º

Tantos pontos no espaço. Portos, rios enormes. Uma só fronteira gigante, impermeável. Capaz de nos engolir inevitavelmente.
Uma soma de pontas de agulha, centenas de centros convergentes, divergentes, diluídos. Um espaço feito de olhos fechados, tacteando. Chamei-lhe cegueira.
Um espaço feito de venenos banais, tão mortais como balas certeiras.
Aquelas luzes a atravessar o porto como comboios apressados. Mais e mais rápido.
E o silêncio? Esse silêncio que surge assim como ao ver a vida através de uma lente em erro de paralaxe. A vida sem estéreo, em frames não sincronizados, laços de abraços trocados, um troço armado de betão.
Essa fronteira enorme como uma parede iluminada, vista através de um caleidoscópio quebrado.
O pânico. Aquele de quem sabe que já perdeu o que ainda não tocou.
Apertei um caule de espinhos com força. Não senti nada.
A confiança, às vezes, mata.
V. Violante, Janeiro de 2004

quinta-feira, julho 07, 2005

º Sem título º

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Verde fulvo
3.000 kilómetros de vontade
do mundo que teço ao ritmo do tempo
numa manta retalhada de memórias
Cinzento húmido
3.000 kilómetros de saudade
moinho ao vento
rebento no barro do tijolo
Vermelho abrasivo
3.000 kilómetros de silêncios

quarta-feira, julho 06, 2005

Sou uma apaixonada pela vida, que tropeça, por vezes, nos nós que ela dá. A forma intensa com que a sinto é a minha droga mais dura.

º Sem comentários º

Uma anedota tão boa, não fora ser verdade.