terça-feira, junho 07, 2005

º Metrónomo de corda º

Apanho o cacilheiro no cais. Há o som da música a roer o pano das colunas, uma música que ninguém escuta. Foi feita para gente de retina apagada, de olheiras e sapatos coçados. Gente que nunca repara no chão mais gasto aqui que ali. Gente que viajou uma vida inteira e nunca saberá dizer de que cor era o assento onde gastou os ossos.
Nos bolsos da minhas calças tenho nódoas imperceptíveis de sal, de chumbo, de dióxido de carbono, de pólens e gordura de guardanapos e lenços. Há espelhos pequenos como gotículas nas vidraças. Tenho aquela sensação que vez alguma foram limpas, feitas também para a indiferença dos outros.
Uma menininha negra de caracóis luminosos observa-me com dois olhos como balas. Têm uns botins vermelhos e uma expressão metálica. Na mão segura com firmeza um pássaro feito de papel e lápis de cera.
A imagem do barco fica-me impressa no rosto como um postal daqueles que se enviam por amor.
No momento preciso, o portão cai. O barco atracou ao compasso rigoroso de um metrónomo de corda. As pessoas saltam para a plataforma do mar para terra. Movimentam-se rápida e desajeitadamente, mas com incrível precisão. Não se tocam, ondulam como um gigantesco cardume colorido de ganga e cabedal, de lâ e flanela e algodão.
Está a chover.
O inverno insiste em não abandonar os céus.
V. Violante, Março de 2005

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