sábado, dezembro 31, 2005

FUCK 2005

quinta-feira, dezembro 29, 2005

º Introspecção - extrospecção º

[...]
e vejo nela uma beleza singela
qualquer coisa de belo
mas que é uma como um livro
inanimado,
coisa hermética, fechada
daquelas que não transborda para nos morder
não nos oferta um sorriso mais dúbio
nem solta um silêncio no momento certo
[...]

domingo, dezembro 25, 2005

º Há dias.... º

... em que desaparecer seria uma dádiva.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

º Deixar de fumar: o meu organismo º

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O que ocorre ao organismo quando alguém pára de fumar:
- Após 20 minutos: a pressão arterial tende a voltar ao normal, a frequência do pulso volta ao normal, a temperatura das mãos e dos pés sobe para o normal.
- Após 8 horas: o nível de gás carbônico do sangue volta ao normal, o nível de oxigenação no sangue aumenta para o normal.
- Após 24 horas: diminuem os riscos de um ataque cardíaco.
- Após 48 horas: os nervos funcionam melhor, a pessoa começa a sentir melhor o cheiro e o gosto das coisas.
- Após 72 horas: os brônquios relaxam, tornando a respiração mais fácil; o pulmão funciona melhor.
- Após 2 semanas a 3 meses: a circulação do sangue aumenta; o caminhar torna-se mais fácil.
- De 1 a 9 meses: diminuição da tosse, da congestão nasal, do cansaço e da falta de ar; o movimento ciliar dos brônquios volta ao normal, limpando os pulmões e reduzindo os riscos de infecções respiratórias; aumento da capacidade física e da energia corporal.

º Deixar de fumar: a motivação ecológica º

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- Para se fabricar apenas 300 cigarros, destrói-se uma árvore.
- No Brasil por exemplo, são consumidos anualmente 128 bilhões de cigarros, o que corresponde à destruição de 426 milhões de árvores.
- No fumo do cigarro são encontradas cerca de 4700 substâncias tóxicas diferentes, que poluem o ar e causam doenças mesmo nos não fumadores.
- A Organização Mundial de Saúde considera o tabaco o maior agente de poluição doméstica ambiental do mundo.

Deixar de fumar: a motivação estatística º

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- Cigarro, charutos e cachimbos causam mais mortes prematuras do que a soma das mortes provocadas por SIDA, cocaína, heroína, álcool, acidentes de trânsito, incêndios e suicídios.
- Um terço das mortes por cancro são ocasionadas pelo uso de cigarros.
- A grande maioria dos ex-fumadores (95%) deixou de fumar por auto-decisão.

º Deixar de fumar: o 42º dia - a fase ciêntifica º

Há dias em que é difícil não pensar em fumar. Por isso, hoje resolvi fazer uma terapia ciêntifica e procurar na internet informação sobre tabagismo. Eis os resultados:
- Um fumar frequente sofre de...
Mau hálito
Vestes e cabelos impregnados pelo odor do fumo
Dentes escuros
Dores de garganta
Tosse Infecções respiratórias freqüentes
Falta de ar
Mau desempenho nas actividades desportivas
Perda da independência - "ser controlado pelo cigarro"
Risco duplicado de doença cardíaca
Seis vezes maior o risco de enfisema pulmonar
Dez vezes maior o risco de cancro de pulmão
Esperança de vida encurtada de cinco a oito anos
Despesas aumentadas com cigarros
Respiração difícil
Envelhecimento precoce, com aparecimento de rugas
Infecções das vias aéreas superiores e inferiores
Dispnéia (falta de ar)
Úlceras do trato digestivo Angina (dor no peito)
Claudicação (dificuldade para caminhar por dor nas pernas)
Osteoporose (ossos mais frágeis e mais propensos a fraturas)
Esofagite
Impotência sexual
.... Surpreendid@? Eu fiquei. Bolas...

quarta-feira, dezembro 21, 2005

º Esta guerra º

De quem é esta guerra? Campos de ira frios como o corpo inanimado do soldado que caiu, perdido numa guerra importada por outrém.
De quem é esta guerra sem projécteis de metal, nem fumo nem poeira do chão levantada pelo estrondo da luta?
É esta a tua guerra, invisível de visões étereas e insónia que alastram nos lábios cortados, meus, de mais ninguém.
É esta a tua guerra, mão gelada sobre a minha fronte, sitio onde o mundo é um imaculado engano e de passo em passo se tropeça.
Arde fundo nos meus ombros, como vidro incandescente, o teu cálice envenenado.
Tenho toda a histeria de um animal ferido no meio da batalha virada para dentro, para as veias, para os músculos, para os tendões, para o ventre.
De quem é esta guerra que afunila os dias?
Escuta, de quem é esta guerra em que as palavras são pedras de arremesso?

terça-feira, dezembro 20, 2005

º Um quarto que seja meu º

Vou enfeitar a casa de flores. deitar uma manta sobre o sofá.
Vou trazer pão e café e deixá-los sobre a mesa.
É esta a velha forma de me despedir, sem raivas.
Vou pousar a minha chave sobre a mesa, abrir a porta, acariciar o gato, sair.
Vou de novo à procura da minha porção maior, a menina de sorriso quente e ilusões azuis e cintilantes presas aos cabelos.
Vou trazer flores e pão e café e uma manta quente, para ti e sair.
Não me armes grades, é sem raivas que sei que nada mais me prende aqui.
Vou procurar um quarto que seja meu, enfim.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

º A inquebrável máscara da vaidade º

Segura as minhas mãos.
Corta-te na mágoa acetinada da minha pele a cuspir tragos longos de melancolia.
A dor desfaz a inquebrável máscara da vaidade como uma pedra de chumbo desfaz uma fina lâmina de cristal.
A dor desfaz-te os ossos, liquidifica-te o peito, enrigesse as tuas mãos, seca os teus lábios, mata-te o desejo como mata um náufrago perdido à noite no mar.
Desfaço-me na minha dor, estrangeira, desconhecida.
Desfaz-te nas minhas mãos, desfaz-te.

terça-feira, dezembro 13, 2005

º Para doer mais º

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Já não sei quando foi que deixei de esperar que o tempo parasse feito numa bola de fogo vermelha, incandescente a descer pelo teu olhar adentro como uma língua enorme e intrusa que se enrola à volta dos corpos como uma corda de pontas de aço afiado que tu teces com a velocidade de uma fera que persegue a presa no momento do embate em que a morte ou a vida é uma fagulha fina como uma lâmina de desfazer ilusões até tudo se embrulhar como um grande mercado ao domingo sem sinalização de entrada ou saída nem portas nem ordem nem nada.
È nas minhas maõs agora dançantes e breves que revolvo o espaço brilhante como tinta de verniz lascada pelas colisões dos astros e dos pós das estrelas que não vejo à noite com meus olhos vadiando pela pele de um outro corpo que se fez diferente em grossas golfadas de ar aspirando e expirando todo o volume de uma guerra que ninguém quer e que ninguém trava com um punho duro e certeiro sobre o cais onde desaguam as minhas lágrimas que não são nem de pranto nem de contentamento são apenas as tuas as minhas e as de toda a gente assim perdida e lançada para este poço tubular onde o príncipio e o fim se confudem para doer mais. Mais.

º Novo ciclo, renovada paixão: o Eu e o Reiki º

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Para quem não sabe, o Reiki é uma técnica japonesa de redução do stress, relaxamento e cura natural através da imposição das mãos como veiculo de canalização de energia. "Rei" significa universal e "ki" energia vital.
Reconhecido desde 1962 pela Organização Mundial de Saúde como prática terapêutica, foi desenvolvido por Mikao Usui durante o século XIX. O Reiki é também um instrumento para o desenvolvimento pessoal e espiritual , das qualidades pessoais, talentos e ambições, aproximando-nos do conhecimento do nosso corpo, intelecto e capacidades físicas, mentais, emocionais e espirituais. Técnicamente falando o Reiki pode ser considerado como um dos muitos métodos e sistemas que fazem parte da família Qigong, usados para activar, harmonizar e (re)ligar-nos à energia vital universal. Parece ter tido as suas raízes no Shintoísmo e Budismo, mas difere das práticas correntes comuns num ponto fundamental: A Energia é transferida ou colocada à disposição do estudante mediante uma iniciação (sintonização) feita por um Mestre habilitado.
Eu fiz a minha iniciação com 17 anos e fui praticante sensivelmente até aos 19. Depois desliguei-me da prática por falta de disponibilidade pessoal. Volto agora às raízes do meu lado mais leve, intimista e espiritual.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

º Novo ciclo, novas paixões : aulas de saxofone º

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A minha nova paixão é um saxofone alto. Não, não é um tenor como o do Stan Getz.
Jazz me baby, jazz me...

sexta-feira, dezembro 09, 2005

"Wie zijn ziel volgt, wacht grote ontmoetingen.
Qui suit son âme, rencontre son coeur.*

(*QUEM SEGUE A SUA VONTADE, REENCONTRA O CORAÇÃO.)

Bruxelas, Junho de 2005

º Cómica triste de lágrima por baixo do véu º

Não tenho palavras para ti, nem gestos, nem flores. Também não tenho a ambivalência vagarosa de quem não sabe se fica se parte.
Tenho a minha língua presa, entalada contra o céu da boca, com força para não se soltar. Tenho toda a paciência de um velho que espera o fim do dia no banco do jardim.
Mas não tenho vontade de me sentar contigo e ver a tua plácida destruição, capricho ou fatalidade ou desprazer de viver, não sei.
Tenho ouvidos para te ouvir dizer que pouco sabes de mim. Ensaias desconhecer até o que efectivamente sabes, perguntas distraidamente como vai o tempo por aí, por ali, palmada nas costas, surpreendes-te com mais um dia perdido. Fazes de conta que estás mais distante do que na verdade estás. Cómica triste de lágrima por baixo do véu. Porque o fazes não sei, talvez seja apenas o produto directo de uma divisão de qualquer coisa, outra vez a matemática ilógica do coração que me segue pelo caminho fora.
Para ti.

º Deixar de fumar: o 31º dia º

Quanto vale a persistência?

segunda-feira, dezembro 05, 2005

º Gottfried Helnwein º

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"Kuss", 2004, fotografia digital

º Mark Rothko º

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"Blue and Grey"

sábado, dezembro 03, 2005

º Deixar de fumar: o 23º dia º

IIIII IIIII IIIII IIIII III
É díficil domesticar o vício que já nos domesticou a nós. Sou persistente. Inventei mil artifícios de ocupar as mãos. Vou continuar a fazé-lo até me esquecer da razão pelo qual o faço.

º Para quê? º

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quinta-feira, dezembro 01, 2005

º O lado oculto do medo º

É através do teu rosto de pedra que perscruto o lado oculto do medo.
Vem, atravessa-te no meu caminho de solidão em punho, ergue-a contra mim como quem ergue a arma de um carrasco.
É através da tua voz que ouço o silvo da falsa consciência, madrasta de uma guerra que sempre deprezei.
Vem, esmaga-te contra mim, parte-te desfaz-te esmigalha-te em cacos como desejas.
Vem, não te prendas.
É através da fria mão estendida que abres o cadafalso em que engoles teias finas de sentidos alheios. Pouco tens que seja teu.
Vem, desafia-me provoca-me enfrenta-me sem essa falsa nobreza que agitas como bandeira à frente dos outros para que pareça real. Eu não sou os outros.
É através do teu rosto que vejo a fraude dos teus próprios sentimentos, hás-de seguir remexendo-lhes às escondidas para que possas enganar-te melhor.
Vem e faremos um recontro sangrento de despojos e cacos e farrapos e cadáveres e temores inanimados como eram os teus pesadelos assustadores de criança.
Vem dilacerar-me se te liberta, ou abraçar-me se te liberta, só não me atinjas mais com o nó das tuas mãos vazias, que essas não foram feitas para as minhas.

sábado, novembro 26, 2005

º Insónia negra cinzenta azul º

Pânico. Frio. Caos. O barulho ensurdecedor das ruas. À noite. Os últimos dias de Novembro.
Desolação, é a palavra que se arrasta na calçada, na cadeira onde me sento e páro, a palavra que se arrasta pelo meu corpo.
Desolação, hoje sou eu o teu mártir, um farrapo atirado contra as lâminas do tempo. O tic tac das horas a ameaçar parar de súbito para me esmagar.
Noites escuras de inverno deitadas à minha cabeceira a gemer-me ao ouvido para que não durma.
Insónia. O visão de tudo o que me escapa.
Insónia silenciosa e mortífera, negra cinzenta azul, um retalho de pedacinhos de vidro moído que trago debaixo da língua.
Uma manta, o pó das coisas. Levanta-se um gesto, cái. O estrondo de um peso morto em queda, pela vertigem da fuga, um regresso nunca feito e um mar nunca bebido. Num só instante um tiro de memórias que atravessa a retina. O estrondo, o estrondo que se prevê depois da queda, mais perto, um segundo e o impacto, o impacto. Quebram-se todos os ossos num só momento, e de um trago instala-se o silêncio.

terça-feira, novembro 22, 2005

º Eu não sou eu, sou muitas de mim [captação III] º

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Dezembro de 2003, Agito - Bairro Alto - Lisboa
Paz sem voz não é paz: É medo.

segunda-feira, novembro 21, 2005

º Mais nada º

Procura-se personagem estranha e complicada como eu para passar as noites escuras e as manhãs chuvosas e cinzentas de Inverno.
Procura-se quem me convide a ficar sem supostos nem pressupostos. Procura-se quem não me faça perguntas e me queira ter enrolada à volta do peito em silêncio, sem porquês, só porque se sente assim e pronto.
Procura-se alguém que tenha a rara capacidade de me anestesiar esta solidão inexplicável com que nasci, que me faça sorrir apesar de tudo e a quem eu consiga também aliviar a dor pela minha presença, pelas minhas mãos, pelo meu abraço. Mais nada.

quarta-feira, novembro 16, 2005

º Absurdo º

Fascínio pelo absurdo. Vai e vem devagar. Não há nada na rigidez do meu rosto que me denuncie. Só um certo pousar errante, um micro segundo mais longo, no objecto do desejo me denunciaria houvesse quem o conseguisse distinguir do meio do caos dos meus olhos.
Não tenho pressa. Quero sentir o embate a chegar, a instalar-se e a alastrar por baixo da pele.
Não espero nada. Tenho na espinha as marcas duras das minhas próprias fantasias.
Não quero saber se vai doer ou aconchegar, quero apenas que se entranhe em mim.
Não quero fazer perguntas. Quero só ficar em silêncio, fazer-me entender assim sem palavras.
Não tenho pressa do fascínio pelos versos absurdos que repousam nos meus lábios que se fazem arder, outra vez.

terça-feira, novembro 15, 2005

º O que resta em nós? º

« Mas para ti...» dizes tu, e interrompes a frase a meio. Não queres dizer o que na verdade pensas e assim calas a frase bruscamente. Eu já te ouvi, e já sei o que queres dizer e já discuti até à exaustão que sou mais sensível do que julgas. Estou cansada e triste e hoje quando penso em ti sinto uma vontade dolorosa de chorar. (Sim, de chorar porque eu também choro) Talvez fosse mais fácil, soubesses tu que da mesma forma que são os outros capazes de te magoar, podes tu também magoar os outros, em proporções e doses semelhantes. Para magoar alguém não é necessário fazer algo. Pode-se ferir muito mais pelo que não se faz do que pelo que se faz. Já dizia alguém que li à tempos, "vê-se o que há atravês do que não há". Dispendo mais energia a tentar compreender-te sempre e incontornávelmente do que a tentar curar as feridas que vais deixando. Assim, com o passar do tempo, foram ficando mágoas que ponho de lado para continuar contigo e não olhei nunca para trás. Tinha a certeza que o caminho era permaneceres na minha vida como algo belo e singelo de um percurso difícil.
Entretanto, um ano e dois meses e muitos dias depois o que resta em nós é mágoa e silêncio.
Assim hoje quero desaparecer, sair de mim e abandonar-me à mais soberba perdição. Que assim já não restará nada mais para dizer «...foi assim...»

quinta-feira, novembro 10, 2005

º Eu não sou eu, sou muitas de mim [captação II] º

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Setembro 2005

quarta-feira, novembro 09, 2005

º Eu não sou eu, sou muitas de mim [captação I] º

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Foto de Carla S. D. V.

segunda-feira, novembro 07, 2005

º Deixa-te morrer º

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Encontrei-me sozinha na rua. Ouvi um vagabundo dizer:
- o mundo é tudo azul se assim o quiseres. Tens na ponta dos dedos o cigarro que seguras com firmeza, pensas tu que não tens nada mais. Tens em cima da mesa onde te sentas um copo de vinho vermelho rubro, e pensas tu que é sangue que bebes. Mas que sabes tu, ó personagem de tuas próprias tragédias, do sangue que te corre por dentro? Agarras uma caneta como quem se agarra à vida, julgas que podes imprimir a mágoa e o amor num pedaço de papel. Mas que sabes tu da mágoa roxa da poesia? Tens nos teus olhos uma infinita fonte de saudade, de angústias, pensas que é neles que vais sepultando a vida, mas que sabes tu da insónia de não se saber ser?
Deixa-te morrer, deixa. Devagar, ao som de um tango.

sábado, novembro 05, 2005

Eu sei.

sexta-feira, novembro 04, 2005

º Meu nome é... º

Olá,
meu nome é paixão
venho visitar-te às escondidas
devagarinho para que não dês por mim
a tactear devagar até às tuas costas e
abraçar-te assim
da cintura à curva do pescoço e
à extremidade de tuas mãos

vou sussurar-te
que meu nome é paixão e
vim ver-te pela madrugada
para te trazer insónia
daquela que não diz o nome
tu sabes
que se te aperto no regaço
transbordas

meu nome é paixão
meu nome é paixão
meu nome
É
paixão

º Um pouco de céu º

Só hoje senti que o rumo a seguir levava pra longe senti que este chão já não tinha espaço pra tudo o que foge não sei o motivo pra ir só sei que não posso ficar não sei o que vem a seguir mas quero procurar
e hoje deixei de tentar erguer os planos de sempre
aqueles que são pra outro amanhã que há-de ser diferente não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu é que hoje parece bastar um pouco de céu um pouco de céu
só hoje esperei já sem desespero que a noite caísse nenhuma palavra foi hoje diferente do que já se disse e há qualquer coisa a nascer bem dentro no fundo de mim e há uma força a vencer qualquer outro fim
não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu é que hoje parece bastar um pouco de céu um pouco de céu
só hoje esperei já sem desespero que a noite caísse nenhuma palavra foi hoje diferente do que já se disse e há qualquer coisa a nascer bem dentro no fundo de mim e há uma força a vencer qualquer outro fim
não quero levar o que dei talvez nem sequer o que é meu é que hoje parece bastar um pouco de céu um pouco de céu
Mafalda Veiga

sexta-feira, outubro 28, 2005

º Introspecção - extrospecção º

És capaz de orientar, satisfazer e aguentar toda a gente e orgulhas-te dessa tua força e dureza.
Tens tanta necessidade de ser admirada que queres controlar tudo e tudos e sentir-te sempre gratificada.
Não tens consciência do vazio que te habita, por isso estás sempre insatisfeita.
És interiormente desamparada e frágil, sem afecto, e compensas essa sensação de frustração relacionando-te com pessoas fortes, que se destacam, respeitadas, admiradas. Entretanto esqueces-te que a única coisa que te falta é amor.
Só te consegues valorizar à superfície de ti mesma, e assim não há espaço suficiente para te relacionares com os outros sem ser numa base de poder que resvala para o pragmatismo e utilitarismo.
Aprendeste a controlar as emoções e a investir a tua energia numa imagem que não és tu, idealizada, só mais uma projecção de poder.
Apareces ao mundo como se não temesses nada, porque tens as tuas fragilidades anestesiadas por esse manto de superioridade que te cobre.
Vives dependente da tua própria fachada.
Assim fechada nessa tua realidade arrastas os outros que facilmente atrais para um saco sem fundo.
És capaz de oferecer a ilusão de tudo: de amor, de charme, de beleza, simpatia. Mas não és capaz de dar efectivamente nada. Não vês as pessoas como pessoas, mas como imagens que admiras ou não, que te podem dar algo que te falta ou não.
Preocupas-te tanto contigo que não tens tempo para te aperceberes das necessidades dos outros.
Tu não amas, manipulas.
Quando um dos teus impérios se desmorona e perde a glória, ages como se nada tivesse existido.
És pródiga em sentimentos rápidos, e tens dificuldade em aguentar relações baseadas em trocas afectivas reais.
És a pessoa mais infeliz do mundo, tenho a certeza.

º Sem métrica - procura-me º

Incendeia-me
Anda e incendeia-me
Se te atreves
[...]
Na mão a rosa murcha de
um desejo que finda
na outra a chama com que me incendeias
não tens porto nem cordas
só essa pouca sensatez com que te guias
a mim
distrais-me do caminho
fazes-me agarrar o volante do desejo com mais força
para não se soltar.

sexta-feira, outubro 21, 2005

º Da equação e da (falta de) solução º

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Fumo.
Olho para ti como quem olha para uma fotografia. Pareces-me um tanto irreal, uma vida dentro de uma esfera de metal, cheia de um líquido translúcido em que te encaixas e repousas. Não sinto a tua falta mas a tua ausência intriga-me. Nunca me tinha ocorrido antes que talvez não te compreenda e que a lógica pouco matemática com que te reges não está assim tão distante da matemática falta de lógica com que me coordeno a mim própria.
Cruzo-me contigo por acaso e é raro constatar que assim é. Talvez evite apenas pensar-te porque nunca te trouxe efectivamente para dentro do cérebro, para te analisar e processar como um documento de débito. Entre nós as contas parecem contrair-se e liquidar-se como se fosse tão óbvio sentar-me contigo a um café como não nos vermos durante anos. E acredita, nenhuma de nós estranha essa silenciosa equação entre a variável eu e a variável tu.
Apercebi-me também que é quando te vejo que cai em mim um sabor amargo, nos lábios, que tento apagar bebendo alcóol. Se um dia o conseguir explicar vou certamente compreender o que nos ligou num determinado tempo e espaço e nos afastou depois. Entretanto vou apenas trazendo o meu corpo pelas ruas, trajecto mecânico casa-faculdade-trabalho, revisitando este ou aquele jardim ou bar ou praia. Talvez a chave desta equação esteja exactamente no semelhante sem-vontade com que abordamos o embate da vida no coração.
É que da vida e da mudança toda a gente fala mas ninguém, na verdade, encontrou a fórmula de resolução, uma universal e aplicável como regra de solução para toda a equação do coração.
Deixei de ser romântica com o tempo mas não deixei de acreditar na falsa matemática do desejo, da paixão, do amor ou de outra coisa qualquer. Assim, vou continuar a calcular e a ser calculada, como as estratégias dançantes de um peão no tabuleiro de xadrez que captura o rei e aniquila a rainha.

quinta-feira, outubro 20, 2005

º Sem título º


a cinza cai como prata sobre os seus ombros. ri-se um pouco. balouça. delira enquanto geme que a terra não tem corpo. o tempo faz-lhe rugas imperceptíveis no rosto. o baloiço ainda está ali, e ela com ele, e o balouçar. a fragilidade tem o sabor do desejo. seria fácil querer tocar-te agora. era como mergulhar da prancha mais rente à tona da água. os desafios nunca se tecem em saltos que não podem ter uma queda vertiginosa. são como o tempo, quer engolir-nos o mais fundo possível. tal qual os rios, é fácil vê-los transbordar. o difícil é atravessá-los. podia escrever uma melodia com o estalar dos sentidos, e serias tu a iluminá-la, tão breve nos teus segredos, tão longe dos teus desejos. podias ser uma só e eu apenas água, ou mais que nada, só um pouco mais que tudo, sei lá, e tudo se confundiria num véu de cor e fogo. não, não seria fogo, apenas incandescência e o fogo seria o meu cérebro a ateà-lo, afinal o fogo também se acende espontâneo e ninguém o espera mas muitos são os que o conhecem, e tu podias dar-mo a conhecer e eu fingidora provà-lo-ia como da primeira vez, e que mentira é, de facto, mas tu também fingirias, e eu sabê-lo-ia e tu também, mas assim amarradas a um tronco sem pés quem sabe onde começa e termina um novelo? não, não vamos falar de memórias, elas trazem sempre feridas escondidas nas palmas da mão e quando fechas os olhos abraçam-se à tua face e mancham-te de sangue. às vezes escrever dói. é como arrancar crostas às feridas, tal qual arrancar recordações aos farrapos do nosso corpo. dói mesmo.

quarta-feira, outubro 19, 2005

º Reflexão II º

Há pessoas que me fascinam pela simples razão de terem a rara capacidade de me fazer chorar de rir.
[...], cravo e canela.

º Reflexão Iº

A saudade ajuda a manter o desejo no sítio.

terça-feira, outubro 11, 2005

º Exercício de auto-estima º

Olho para a palma da minha mão: na pele pequenas linhas multiplicam-se pela sua superfície e formam pequenos veios que se espalham em torno dos dedos como aneis. Analiso as linhas, a cor da pele, a sua textura, a sua flexibilidade. Abro e fecho os punhos, estendo as costas das mãos à minha frente, à altura dos olhos de forma simétrica e faço-as girar em sincronia alguns graus tendo como eixo um ponto imaginado no espaço. Observo atentamente os nós dos dedos, as veias, as marcas de tendões e as unhas. Levo esta inspecção ao pormenor. Hoje não tenho quaisquer feridas ou cicatrizes nas mãos, de modo que a pele parece estender-se como um todo, sem vermelhidões ou interrupções. Olho os ossos que se adivinham por baixo. Não rôo as unhas e tenho-as cortadas curtas. A forma das palmas das mãos é ligeiramente quadrada mas alongada, de dedos finos e esguios. Tenho um sinal na palma da mão direita, um nas costas da mão esquerda, outro no dedo anelar da mesma mão.
Quando era pequena custumavam dizer-me na escola que tinha mãos de lavrador. Suponho que pretendiam com isso um insulto, talvez por essa razão cresci com um certo embaraço pelas minhas mãos. Ganhei o hábito das esconder nas mangas das camisolas e casacos. Debaixo da mesa do bar, nos bolsos das calças. É curioso como pequenos embararços de criança crescem com as pessoas e as seguem vida fora, ao ponto de já não sabermos exactamente o porquê de certos hábitos e manias, de sabermos apenas que sentimos assim e pronto.
Por isso talvez hoje dei comigo a olhá-las somente com os meus olhos. E finalmente achei-as gentis e gostei delas.

segunda-feira, outubro 10, 2005

º E se... º

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E se um estranho de expressão perdida e enormes olhos azuis te abordasse em plena Rua da Rosa e te perguntasse educadamente: "Posso convidá-la para tomar um café?"

terça-feira, outubro 04, 2005

º Da memória e do sonho: 5 fotografias da paixão visual º

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Pára-sol para um entardecer quente de Verão (Guarda, 06/2001)


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Projector de ilusões a fotogramas trocados (Tomar, 10/2002)


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Impulsos químicos para um movimento perpétuo (Lisboa, 11/2002)


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Tempestades de chuva de lodo e de mar (Sesimbra, 12/2003)


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Espelho de rua num campo de barro (Caldas da Rainha, 03/2004)

Fotos e texto de môi mêmê.

domingo, outubro 02, 2005

º Fragmento VI º

Fumas os teus cigarros, curtos e duros, com essa tua melancolia azul e infinita de sentir a beleza. Qual criança que se perdeu da mãe, filha trágica de um abandono que é só teu.

º Fragmento V º

Encontrei-te sentada à varanda a chorar. A chorar, amor, de verdade! Se o tivessem predestinado anos antes, não acreditarias.

º Fragmento IV º

Encontrei no bolso de um casaco velho um recibo de restaurante. Pela data sei que foi daquele dia em que me apaixonei por ti. Ontem tirei um recibo do bolso das calças. É a conta dos dias que passei contigo. O montante parece-me inintelígivel e o vencimento não tem data marcada.

º Fragmento III º

Fizeste da crueldade um artíficio para equilibrares as ilusões fantásticas que a humanidade que tens prende em ti.

º Fragmento II º

À noite estendo a palma da mão, toca um violoncelo e só eu o ouço.

º Fragmento I º

[...] que o amor não se faz só de beijos, que é feito de dar aquilo que se tem e que é pouco, e ainda assim se quer partilhar.
que encontrei, esta assim, a forma de te amar, de todas as posssíveis, a única possível.[...]

quarta-feira, setembro 28, 2005

º Mosaico para um domingo sem ti º

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É aos domingos que sinto a tua falta.
Toda uma panorâmica de paredes e tectos caídos amanhece comigo ao ritmo preciso de um calendário de parede. Lembro-me que um dia, angustiada, procurei um calendário com seis dias apenas. Outro, recortei do calendário pequenos quadrados de papel nos domingos e montei com eles um retalho de mosaico fúnebre para tentar enganar o tempo. Devo confessar que falhei estrondosamente.
Assim, é ao domingo que sinto a tua falta.
Em cada quadradinho de papel pintei uma cruz, juntei-os e colei-os numa tela de tonalidade azul-cinzenta que pintei a acrílico. Chamei-lhe mosaico-para-um-domingo-sem-ti e de seguida pendurei-o contra a parede, ao lado do agora retalhado calendário.
Hoje, quando o olho vejo nele o reflexo daqueles domingos em que acordávamos de manhã e o mundo era todo nosso. Sentávamo-nos à mesa a tomar café e a falar de coisas banais. Depois eu ligava a música e fumavamos no pátio. Tu contavas-me histórias, e depois eu e assim entardecíamos ainda de pijama no corpo. Depois, eu fazia sumo de groselha com hortelã e deitava-me no teu sofá, ao teu lado, pipocas doces para ti, salgadas para mim e víamos um filme de um qualquer realizador asiático, e eu chorava no fim e depois adormecia abraçada a ti. Tu tiravas-me fotografias no meu sono, e de seguida adormecias também. Quando acordávamos era noite cerrada, fosse verão ou inverno, e eu tirava o pijama e tu também e corríamos para o cais para ver a lua no rio. Passavam-se horas assim. Quando voltávamos eu virava a página de um calendário de mesa, despreocupadamente como se o tempo não pudesse acabar nunca.

para a Ângela, com amor.

º Citação apropriada º

Hoje de manhã, no autocarro a atravessar a ponte li:
«Esteve a chorar, os olhos ainda não sabem mentir. Dói-lhe qualquer coisa muito fundo, uma coisa que tem a ver com a falta de amor, a violência da vida.» (Pedro Paixão, Saudades de Nova Iorque)
... e lembrei-me de ontem, como faltei às aulas da manhã depois de ter terminado de ler, também no autocarro, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres de Clarice Lispector. Fiquei de tal modo angustiada que incapaz de não chorar e envergonhada pela minha própria condição me fui esconder na serenidade dos jardins da Gulbenkian. E mal me recomponha por momentos, levantava-me e seguia Av. Berna acima para a faculdade, voltando para trás, qual barata tonta, lavada em lágrimas de novo.
Não, não eram lágrimas de tristeza. Do que eram não sei. Chamei-lhes lágrimas, só.
Obrigada Oscar.

sábado, setembro 24, 2005

º Amor, de que é feito o coração? º

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Efémero.
Assim é teu
coração
feito de iodo e
sal
uma mão cheia
de risos
roubados sem remorso.

Estanque.
Assim restou meu
coração
feito de pérolas imperfeitas e
castelos de areia e
conchas
do mar
teu.

[...]

Meu desejo são castelos de areia que
arrasas devagar
tragados pelo mar.

Vou reconstruindo o que tu vais
destruindo,
talvez traga a areia da praia
para longe
do mar
e
recomece.

quinta-feira, setembro 22, 2005

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As árvores morrem de pé.

sexta-feira, setembro 16, 2005

º Rainha de espadas, rainha de copas º

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ela disse: o teu corpo cheira a àgua salgada. Tens na superfície da pele os traços invisíveis de mares inteiros que bebeste.
eu disse: do meio de um baralho de cartas tiro a rainha de espadas. A ponta de sua lâmina é de dois gumes, rasga assim as noites claras das marés.
ela disse: o teu corpo é feito de àgua salgada, trazes na pele os estilhaços minúsculos e precisos da lâmina contra as rochas com as quais embateste.
eu disse: do meio de um baralho de cartas tiro a rainha de copas. O vermelho de seus lábios é rubro e doce como o sangue que espalha impiedosa pelo mar. Salgado.

segunda-feira, setembro 12, 2005

º Se tudo isto fosse uma Polaroid º

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Faço um esforço por te compreender. Não tenho de te compreender. «Pára!». Levanto-me, vou fumar um cigarro. Peço outro vodka e bebo-o de forma pesada e solene.
Alienação.
Dou comigo a perder a noção de que estás na mesma sala, fico absorta com um ponto qualquer na tinta lustrusa da parede. Vermelha.
Passas-me um cigarro que não pedi, dizes qualquer coisa que se afoga no emaranhado da música e das pessoas e do barulho de copos nas mesas e no balcão.
Alienação. Hoje a roupa que visto nem parece ser a minha.
Lá estás tu a levantar-te, rodopias sobre ti própria, procuras mais um copo com alcóol, ris-te muito, falas com toda a gente. Já não te (re)conheço.
Alienação. Estou muito pedrada e ébria, e isso que importa?
Mantenho a compostura, estou direita, pernas cruzadas sobre a cadeira, falo pausadamente, ondulo ao som da música.
Alienação. Por vezes a visão fica-me turva, tenho de semi-cerar os olhos, concentrar-me e abri-los com força.
Olho para a cadeira à minha frente, está vazia. Não me apercebi de te teres levantado, esqueci-me da tua posição no espaço, da tua presença.
Alienação. Perdi o mapa com as linhas da tua latitude e longitude, coordenadas trocadas e abandonadas.
Tenho medo de que o meu cérebro te esteja a apagar da realidade como aqueles recortes que se fazem nas fotografias para excluirmos as elementos que não pertencem.
Se tudo isto fosse uma polaroid de grandes dimensões estaria uma mancha no teu lugar, indefinida, resultado de defeito de fabrico de um qualquer químico de revelação.
Alienação. Parece que se passou tanto tempo. Meses, anos, séculos.
Tenho inscrita na palma da minha mão a minha própria perdição. Se a única forma de te me alienar completamente for eu mesma desaparecer, falo-ei.

domingo, setembro 11, 2005

º Literatura revisitada: Uma História de Amor Como Outra Qualquer de Lúcia Etxebarría º

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Mais uma leitura arrancada às minhas noites brancas de insónia. 15 contos que nos trazem histórias que podiam ser as nossas. Histórias de abandono, de confiança, de desespero, de alegria ou de solidão. De pessoas como tu e eu. Pessoas como outras quaisquer. O que me fascina na prosa de Etxebarría é a sua escrita crua, despida de pudores, por vezes de uma simplicidade banal mas nunca vulgar. Uma capacidade deliciosa de nos fazer rir da miséria humana. De a apresentar com dignidade e como uma realidade, mas não dramaticamente como um fim.
Divertido e comovente. Belo e vertiginoso. Aqui ficam algumas citações escolhidas por mim.

«A minha mãe era uma senhora tão fria que parecia conservada em gelo, na atmosfera gelada da sua vida irrepreensível como dizem que se mantêm os corpos que se encontram nos glaciares.»

«[...] era mercadoria de saldo, usada, uma coisa para utilizar como alívio nas noites de bebedeira, mas não uma rapariga pela qual alguém se pudesse apaixonar.»

«Ela sentiu-se mal, mas não por ele, por si própria. Só queria que aquele momento acabasse, beber aquele cálice amargo de uma vez por todas. [...] Quase o odiou por ser tão bom, por aceitar tudo com tanta elegância, por ser, inclusive, capaz de encontrar algo agradável na forma de abordar a ruptura, por a fazer sentir, por contraste, tão má e desprezível.»

«Agora era livre. para o bom e para o mau. Para o prazer e para a culpa.»

«Adeus Gael, guarda esses lábios para o caso de eu voltar no próximo Verão, disse-lhe sem o dizer, mais para mim própria, porque acabava de descobrir que existe um sentimento humano mais poderoso do que a obcessão. O orgulho.»

« [...] quem ama não humilha o seu parceiro, nem o assedia, nem o faz sofrer. [...] porque ver-me sofrer o fazia sentir seguro e superior ou, pelo menos, mais forte.»

«Tinha criado um fantasma. A minha relação estava morta mas não enterrada, porque me empenhara em maquilhá-la e em tentar dar um aspecto de vida ao cadáver, como o empregado da agência funerária que enfeita um morto para que os seus entes queridos possam conservar, até ao último momento, a ilusão de que o defunto não partiu de todo. E, de imediato, todo o futuro se apresentou, perante os meus olhos, como um baralho de cartas de tarot espalhadas sobre uma mesa e, percorrendo o seu interminável vazio, deparou-se-me a mulher consumida que iria viver nele, a pessoa azeda em que já me estava a transformar, a que iria morrer em vida porque não encontrava forças para deixar o homem que a ia envenenando lentamente.»

«Existia um contraste enorme entre aquele exterior festivo, transbordante de danças e música e movimentos e risos, e o que ela sentia, uma estranha modorra que a paralisava, um sono que não dormia, que se pousava nas pálpebras sem as fechar, um estar ali sem estar.»

«De qualquer modo pouca importância tinha o que se falava, se o que verdadeiramente conta é o que se cala. Vemos o que há a partir do que não há.»

« [...] no amor, e no Jazz, o prazer depende da surpresa, do inesperado, do improviso. O momento sublime de um concerto ou de uma relação é precisamente esse em que tudo se desmorona, em que o prevísivel se torna imprevisível, e é então que se realizam as harmonias e os actos que, segundos antes, eram inimagináveis.»

« [...] paixões consumadas, paixões consumidas [...]

« [...] sai-me pela frente uma casa asquerosa, com tanta merda, digo-te, que nem com uma pá a apanhavas.» Não resisti a citar isto. Obviamente não pela sua qualidade literária mas porque foi um momento de leitura tão insólito que comecei a rir sozinha, compulsivamente no meio do autocarro, para espanto dos outros ocupantes, a chorar de rir de tão cómica se me assomou a imagem

«Mas não me suicidei. Não tinha coragem para o fazer, e para morrer não basta desejá-lo. Tu queres morrer mas o teu corpo empenha-se em ir em frente.»

«Por isso prefiro morrer por uma coisa justa, sobretudo num mundo onde imperam a sem-razão, a injustiça, a lei do mais forte. Um mundo que se erge sobre sangue, governado pelos néscios e pelos cruéis com engano sobre engano, um mundo que a desolação agita de ódio em ódio, um mundo que adora a riqueza e destrói os que cantam, um mundo em que há vidas de primeira e de segunda categoria, um mundo em que uma vida pode valer menos que um barril de petróleo. Palestinianos, iraquianos, saúris: todos sacrificados à mesma paixão, a paixão do Ocidente pelo ouro negro.»

sábado, setembro 03, 2005

º Ah! esta alegria de viver! º

"Provo...............................................
Que a mais alta expressão
da dor.......
Consiste essencialmente
na alegria..."

Augusto dos Santos

terça-feira, agosto 30, 2005

º O amor dos outros º

Um dia sentei-me numa varanda virada para o rio e pensei: - como é bruta esta vida a comer-nos o coração! Não pede licenca, não se arrepende, não olha para trás, não tem compaixão nem se demove. Tanto nos beija como nos mata. Assim, talvez seja essa a razão pela qual acredito pouco na vida e no amor. Sei no entanto pouco sobre a vida depois do amor. E hoje, sentada numa varanda virada para o rio, com o silêncio a comer-me o coracão sei quão desprezível é dar cabo do amor dos outros em troca da nossa própria vida.


sexta-feira, agosto 19, 2005

º Amsterdão º

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Levo a minha paixão até Amsterdão. Estarei de volta em Setembro!

quinta-feira, agosto 18, 2005

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"There's a light that never goes out"


segunda-feira, agosto 15, 2005

º Cuspi sangue sobre o teu nome º

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Escrevo-te para te confessar da minha vida o que ainda não te disse. Que das formas todas de comunicar, foi na escrita que encontrei o meu melhor instrumento. Sei que da caneta e do papel escorrem mais palavras que da minha boca. Mas eu não sei falar de mim. Não falo, escrevo. Não falo, toco.
Sempre me senti mais confortável no meio dos meus próprios livros, discos, cigarros e poemas do que deitada na tua cama. Isto não quer dizer que prefiri a minha solidão à tua companhia, não me interpretes mal. O que quero dizer é que na tua cama dançavam as tuas paixões, as tuas fantasias, os teus medos, as tuas fugas e, claro, também as tuas amantes. Assim, talvez por isso, nunca me senti em casa na tua cama mas sempre uma intrusa. Ou mais um corpo nu, pressionado contra as paredes do quarto, contra o tecto e os móveis e o soalho e a tua plácida misantropia.
Tenho de te confessar, traí-te tantas vezes que não poderia mais precisar-te com exactidão quantas vezes o fiz. Deitei-me com a a tua ausência e abracei-me a ela. Beijei-a e acariciei-a, e falei-lhe da minha vida e das minhas aspirações mais profundas. Falei-lhe de nós e dos nossos segredos. Contei-lhe histórias para crianças e chorei-lhe no colo mil vezes. Quando acordava de manhã, tinha-a entre os braços e apertava-a com mais força para me convencer que ali estava. Passei com ela - a ausência - incontáveis noites em claro, li-lhe poemas e cheirei-lhe a pele e fiz-lhe cócegas. Fiz-lhe também silêncio, daqueles enormes a arrastar-se, corrosivos como o ácido.
Sim, tinha de te confessar: traí-te. Enquanto te traí suportei com elegância a tua melancolia infinita, como quem veste um belo fato num dia de festa mas recusa a rosa que lhe dão para enfeitar o bolso porque este tem o fundo roto. Enquanto te traí trouxe sempre comigo, também, uma pequena lámina aguçada, fina como a malha de um collant, com a qual me apunhalei voluntariamente só para sentir os sentidos a funcionar.
Acabei no entanto por despenhar-me com violência no abismo dos mal amados, e partir cada osso do meu corpo contra o chão do desencanto. Vim, despenhando-me aos bocados, abismo abaixo, ora estatelando-me contra uma rocha, ora rebolando e caindo um pouco mais só para me estatelar novamente noutra rocha. Até ao chão, o fundo do abismo, até à saudade desmedida, insuportável.
Quer me acredites quer não, conservei sempre comigo um sorriso durante a queda. Penso que ao ser concebida me concederam o dom do perdão e da compreensão e da gentileza infinita. Porém não me concederam o dom do esquecimento da memória. De que servirá a alguém a gentileza infinita se não se lhe se esfuma também, entre as mãos, o passado?
Tornei-me perita em perguntas sem resposta, em mil e um artificios de produzir silêncio. Criei monstros e fantasmas para me atormentar de noite e carrosséis e fitas coloridas para me agitar o dia. Bebi alcoól até me arder o estômago e fumei até me doerem os pulmões. Dancei e chorei até me latejar o corpo, violentei a alma até a partir ao meio. Cuspi sangue sobre o teu nome. Um dia, por fim explodi e desfiz-me em cinzas. E o vento varreu-me do chão e eu desapareci.
Concluí que mudaste irremediavelmente a minha vida e a mim mesma.
E tu? Tu continuarás a chafurdar na tua amargura e azedume e hás-de esquecer-me pelo prazer doutro corpo. O sorriso enigmático que me acompanha - aquele que me repetias não saber descodificar - dou-to como fruto maduro da minha paixão, acabado de se soltar do galho e embater contra o chão para em breve se desfazer.
Enquanto fecho as persianas do meu quarto, acendo um cigarro e devagar desfolho mais uma noite de insónia.

domingo, agosto 14, 2005

º Solidão III º

Cheguei a esta conclusão à momentos atrás depois de meio maço de cigarros e um chocolate:
Sinto-me fechada e a precisar de estar sozinha e ao mesmo tempo não páro de procurar um alivio para essa mesma solidão. Um cigarro, um vodka, um charro, um disparate trocado com um amigo, os bars de sempre.
Será possível não suportar que alguém entre na nossa vida ao mesmo tempo que a nossa solidão nos esfarrapa?

º Solidão II º

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Deixo-te como herança a minha ausência pintada de branco.
Toma, ofereço-te a pedra gelada de neve que me ficou no lugar do coração. Estima-a com atenção, pois é tudo o que tenho.

º Solidão I º

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Anda, agarra as minhas mãos com desejo, acaricia-me a pele devagarinho. Mata-me de afecto que há dias em que não suporto a minha própria solidão.

º Cada vez mais aqui º

"E praquê fingir? E porquê mentir? E remar na dor? Achas que ninguém vê?
Também eu queria parar, chorar, cair, para me levantar, para te puxar, te fazer sorrir, não voltar a cair...
Não me olhes assim, continuo a ser quem fui, cada vez mais aqui.
Não dances tão longe que eu já te vi..."
Toranja

º Cara a cara º

Foge, menina, e põe a cabeça na areia para não veres. Anda, cega-te com força, arranca os olhos se assim te aprouver. Faz de conta que não desejas e estilhaça-te num farrapo ainda maior. Cara a cara, nega o desejo ácido que te come o coração.

segunda-feira, agosto 08, 2005

º Solidão de fim de semana º

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Gosto de entrar em casa aos fins de semana, quando todos foram para fora. A casa fica silenciosa. Gosto de entrar, rodar a chave na fechadura e saber que ninguém me espera. Gosto de entrar fechar a porta, descalçar os sapatos e atirá-los para um sitio qualquer no meio do corredor, tirar a mala enquanto caminho até à cozinha e deixá-la espalhada no meio do chão. Gosto de abrir o frigorífico, tirar o pacote de leite de soja, fechar a porta com o calcanhar, beber directamente do pacote enquanto caminho despreocupada para a sala. Então ligo o Hi-fi, e ponho a tocar qualquer coisa suave-melódico-melancólica para me esquecer que vim do caos lá de fora. Vou ao meu quarto dispo a roupa, atiro a t-shirt para cima da cama, os calções para cima da cadeira, as meias para o chão, abro o armário, visto uns boxers e uma t-shirt velha que faz três de mim. Volto à cozinha, dou comida aos gatos, trago um cinzeiro comigo, tropeço na mala que à pouco deixei no caminho, riu-me de mim própria. Volto para a sala, estou vagamente mole. Troco de disco para Amadou et Marian, estou apaixonada pelos sons do Senegal. Afasto as coisas e os tapetes, apetece-me dançar descalça, deslizo a planta dos pés sobre o soalho, posso fazer isto durar horas até me cansar.
A noite vai caindo, estendo-me no chão onde já adormeci tantas vezes, acendo um cigarro, olho para o tecto como quem olha para uma obra prima.
Ah, como sou feliz na minha solidão de fim de semana.

º O Mercedes da minha vizinha fala espanhol º

Ia eu, rua abaixo em direcção à porta de casa, chave na mão, distraidamente e eis que alguém me chama. Olho para trás e vejo um enorme carro, tipo banheira de luxo, resplandecente, novíssimo, pra-lá-de espalhafatoso. Depois lá reparei numa figurinha pequena e enfezada que sorria para mim. É a filha mais velha da minha vizinha do 3º andar que custumava brincar comigo quando eramos crianças. Eu tinha 5 ou 6 anos, ela 9 ou 10. Levei alguns segundos a reconhece-la e já ela vinha ao meu encontro. "Como-estás?-Bem?-Que-Bom?Eu-Também-Formei-me-em-Direito-Trabalho-na-Empresa-do-meu-Pai-ganha-se-bem-e-tu?Tás-tão-elegante-mas-devias-arranjar-te-mais-Eu-vim-agora-de-férias-Olha-o-meu-Carro-não-é-lindo?Tem-limpa-brisas-automático-6-mudanças-televisão-e-Dvd-Oh-Mas-não-é-nada-só-um-capricho-e-Tem-um-Painel-inteligente-Diz-tudo-o-que-se-passa-com-o-carro-E-em-que-parte-Ainda-Bem-não-percebo-nada-de-carros-e-diz-me-se-as-portas-estão-bem-fechadas-quando-devo-pôr-gasolina-mas-só-tem-um-problema-é-em-espanhol!"
Estranho como as pessoas crescem e depois parece que as suas vidas se alheram tanto das nossas que não acreditarias se não visses com os teus próprios olhos.

º Literatura revisitada: Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski º

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Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski foi o livro que li, na minha primeira semana de férias. Decidi recordar e partilhar as melhores citações (para mim, claro)

"Será possível viver sob este céu gente zangada e injusta?"

(...) E não pense que exagerei ao contar-lhe a minha vida, não pense, (...) porque é verdade que às vezes tenho momentos de uma amargura insuportável, insuportável... Nesses momentos ponho-me a imaginar que nunca serei capaz de começar a ter uma vida verdadeira, porque são momentos em que perco o tacto e o olfacto do verdadeiro, do real; porque chego a amaldiçoar-me a mim próprio; porque, depois das minhas noites fantásticas, vêm os horríveis minutos do desembriagamento!"

"Inutilmente remexe nas cinzas o sonhador, nos seus sonhos antigos, procurando nas cinzas ao menos uma faísca, uma brasa em que sopre e acenda uma chama, para aquecer com o fogo recuperado o coração arrefecido e ressiscistar nele tudo o que dantes lhe era tão querido e lhe tocava a alma, que lhe fazia ferver o sangue, que lhe arrancava lágrimas dos olhos, que tão luxuosamente o iludia!"

"Eu também estava feliz, (...) de tal modo me impressionava a natureza, a mim, citadino meio enfermiço, quase asfixiado entre as paredes urbanas."

"É que quando estamos infelizes, sentimos mais a desgraça dos outros; o sentimento não se dispersa, concentra-se."

sábado, agosto 06, 2005

º Odeias-me? º

Pára de me quereres ensinar como me sinto e deixa-me ficar sozinha. Já me basta a ressaca e a dor nos pulmões.
Pára de me quereres consertar, eu não estou avariada. Estou em modo stand-by como aqueles electrodomésticos que se vendem em lojas com promoções e cartazes muitos, vermelhos e amarelos e letras gordas.
Pára de me tentar interpretar, de calcular a raiz do meu problema por números e lógicas matemáticas que me são estranhas. O meu coração multiplicou-se ao expoente da loucura há já muito tempo.
Aprendi a ler-te nas entrelinhas, e tu sabes que eu sei bem que tu não quisseste foi um amor díficil.
Se não fosse tão gentil certamente teria experimentado provocar voluntariamente o teu próprio caos. Só um bocadinho, para não doer muito. Só o suficiente.
Odeias-me porque não te pertenço?
Odeias-te porque não te pertenço?
Odeias-me, odeias-te?
Odeias?
Se sim, deixa-te disso. Estás a perder o teu tempo.

º Obrigada º

Obrigada por me teres feito sentir leve. Obrigada por me teres feito sentir tua. Obrigada por me teres feito sentir útil. Por me teres feito sentir amada. Por me teres feito sentir gentil. Por me teres feito sentir adulta. Por me teres feito sentir calor. Por me teres feito suspirar. Por me teres feito sorrir. Obrigada por me teres feito corar. Por me teres feito gaguejar. Por me teres feito desejar. Obrigada por me teres feito gemer. Por me teres feito derreter. Por me teres feito viajar. Obrigada por me teres feito crescer. Por me teres feito aprender. Obrigada por me teres apoiado. Por me teres beijado. Por me teres admirado. Por me teres procurado. Obrigada sobretudo por me teres feito feliz. Muito. Muito.
Obrigada por me teres feito sentir viva.

Obrigada por me teres feito chorar. Obrigada por me teres deixado só. Obrigada por me teres abandonado. Obrigada por me teres mentido. Por me teres humilhado. Por me teres destroçado. Por me teres maltratado. Obrigada por me teres feito tremer. Por me teres feito revoltar. Por me teres feito desesperar. Obrigada por teres gritado comigo. Obrigada por não me teres ouvido. Por me teres menosprezado. Por me teres rebaixado. Por me teres feito sentir insegura. Por me teres feito sentir fraca. Obrigada por teres sido egoista. Por teres sido insensível. Obrigada por me teres jogado. Por me teres apostado. Por me teres oferecido. Hipotecado. Obrigada por me teres feito sentir culpada. Por me teres feito sentir falhada. Por me teres feito sentir quadrada. Obrigada por me teres deixado vazia. Por me teres devassado. Por me teres esgotado. Obrigada por toda a infelicidade que me deste.
Obrigada sobretudo por me teres magoado. Muito. Muito.
Obrigada por me teres feito sentir morta.

Obrigada por teres sido tu. Comigo.

quarta-feira, agosto 03, 2005

º O lado errado do coração º

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Será possível amar do lado errado do coração?
Será possível perder do lado errado do coração?

º Elogio ao amor º

"Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
(...) Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso - Expresso )

segunda-feira, agosto 01, 2005

º O fim da inocência º

O fim da inocência foi quando um dia terminou a gentileza. Foi quando se acabou a vontade. Foi quando a motivação morreu, quando a confiança se esgotou.
O fim da inocência foi o drama que nunca persegui e que ainda assim me atropelou. Lento.
Hoje prefiro ficar na mais dura solidão a deixar-me invadir por outro corpo.
O fim da inocência, amor, trouxe à tona o meu corpo como na forma de um cadáver. O meu rosto na forma de um silêncio. O meu peito na forma do caco pontiagudo de um vidro. Os meus olhos na forma de enormes bolas de chumbo.
O fim da inocência, amor, veio na forma de uma mulher, duas, trés, perdi-lhes a conta. Dei-lhes tudo o que pediram, só não lhes dei todo o corpo nem o que do coração te pertence.
O fim da inocência foi o que nos matou.
Foi a arma que empunhamos uma contra a outra e que disparámos direita ao coração. Que já não tenho.

terça-feira, julho 26, 2005

º O asfalto revisitado º

Sempre gostei de viajar. Trazer comigo a mochila às costas. Um casaco para a noite, os cigarros, uma máquina fotográfica. Um bloco de notas e um livro. Canetas e lápis mais do que preciso. Uns óculos de sol. Uma série de inutilidades que acho que sempre úteis. Um lenço indiano e uma agenda do SOS racismo. Uma polaroid tirada numa noitada. E a estrada. Fascinam-me as placas da estrada com direcções e indicações sempre diferentes, cidades vilas e aldeias. Os postos de serviço à beira da estrada. 100, 200, 300 kilómetros, o asfalto revisitado. Encho-me do mundo o mais que posso. E depois, recomeço. Descobri que sou uma romântica viajante, não consigo separar-me das memórias dos sítios que visitei. Amanhã parto novamente.

domingo, julho 24, 2005

º O caos tem banda sonora º

Sinto-me claustrofóbica em espaços pequenos e cheios de gente e barulho. São os corpos e rostos diferentes a misturar-se e a mexer-se sem ordem nem compasso, são as palavras e as frases e as conversas inteiras a cruzar-se e entrecruzar-se como fios intermináveis de um enorme novelo desalinhado. E a música? Toca incessantemente por cima de todo o barulho e movimento, ninguém a ouve e ninguém passa sem ela.
Afinal o caos tem banda sonora.

sexta-feira, julho 22, 2005

º O passado é um lugar estranho º

Escreveste-me uma carta que me deixaste em cima da cabeceira. Soube logo que era tua e que se dirigia a mim. Trazes contigo os mesmissímos hábitos de sempre. Por essa razão talvez me sentava contigo à mesa e fazia autênticos diálogos em silêncio que precediam por segundos o teu próprio discurso. Adivinhava que a seguir te levantavas, arrumavas o prato nesta posição, a cadeira naquela, que te encostavas à janela com esse ar irado de quem perdeu à muito a capacidade de se amar a si próprio. Tinhas um padrão de comportamento diabólicamente metódico, estudado, complexo e eficaz. Creio que a grande parte das vezes me venceste pela exaustão. Lembro-me também que ao fim de horas sentia qualquer sentimento familiar com o desespero que me fazia chorar. E lá estavas tu mais uma vez, com o teu sorriso triunfal e depois esse olhar reprovador. «Pára de chorar, incomodas-me». Não sei quantas vezes tive vontade de te deixar logo ali, sozinha. Perdi a conta das vezes que bati com a porta, cheia de raiva e caos a aquecer-me por dentro até finalmente rebentar. Rebentei sempre sozinha porque criei este instinto de protecção para contigo. Não queria a minha ira colidisse contigo, evitei sempre esse confronto em contra-mão.Lembro-me de te repetir vezes sem conta que não gritasses comigo. Dizias que querias ver-me perder a cabeça, ver-me a orquestrar como tu uma cena afinada de humilhação. Foi esta a única linguagem que percebeste claramente, com a maior nitidez. esta foi sempre a tua lingua materna. Ah! ... eu falei sempre uma língua estrangeira contigo. E mesmo assim, continuámos. Um dia, lembro-me bem, senti-me sair de mim. Não sei se existirá alguma razão lógica que me explique, mas sei que deixei de ser eu. Absorvi do teu veneno meses a fio, sem me dar conta. E um dia, já não era eu, era já o monstro dos meus restos mortais. Lembro-me de subitamente subir a mim um ódio que nunca tinha provado, e gritei, gritei gritei contigo até descarregar todo o veneno que trazia comigo. Foi nessa altura que me compreendeste por fim, pois foi nessa altura a primeira vez que vi em ti uma expressão nova. Ficaste pálida e silenciosa, os olhos pregados com espanto em mim. E quando terminei ficaste muda e imóvel, os teus gestos traíram-te e deixaste-te invadir de um estranho pânico. E só te ouvi falar quando saí do quarto directa á porta, directa ao mundo sem ti. «Não te vás embora», foi o que tu disseste.
E eu já tinha saído, já tinha saído.

º Raiva II º

"Something in you caused me to,
Take a new tact with you,
You were going through something,
I had just about scraped through
Why do you think I let you get away, With the things you say to me?,
Could it be I like you, It's so shameful of me, I like you
No one I ever knew or have spoken to,
Resembles you,
This is good or bad, all depending on,
My general mood
Why do you think I let you get away, With all the things you say to me?,
Could it be I like you, It's so shameful of me, I like you
Magistrates who spend their lives, Hiding their mistakes
They look at you and I, and, Envy makes them cry, Envy makes them cry"

Morrissey - I Like You

quarta-feira, julho 20, 2005

º Viajar cura a melancolia º

"Um dia li num livro: «viajar cura a melancolia».
Creio que, na altura, acreditei no que lia. Estava doente, tinha 15 anos. Não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela ideia de que lera uma predestinação."

Al Berto - "Aprendiz de viajante" O Anjo Mudo

terça-feira, julho 19, 2005

º Raiva I º

You shut your mouth
how can you say
i go about things the wrong way?
I am a human and i need to be loved
just like everybody else does

The Smiths - How soon is now?

segunda-feira, julho 18, 2005

º Finally we are no one º

" he grabbed my thumb and led me away from the accident.
there was no point in watching any more, still i was reluctant to move. «we have to go find the others» he said. he never looked straight at me. we walked in the grass, around the shack and down to the stream. for some reason, i had never walked down there before. we went into a concrete tunnel, dark but warm. a part of a noise was leaking from the ceiling. now there was that music again. he sat down and heard me do the same. «finally we are no one» he said."
Múm

domingo, julho 17, 2005

º "I am so sad / i don't know why" º

Hoje vou chorar até partir a alma. E amanhã não sei, perdi a vontade de querer pensar no futuro com muita seriedade. Quer pensemos quer não ele encontra-nos na mesma.
Vou chorar até partir a alma. E amanhã não sei.
O futuro há-de esbarrar comigo, outra vez.

segunda-feira, julho 11, 2005

º Sem título º

Tantos pontos no espaço. Portos, rios enormes. Uma só fronteira gigante, impermeável. Capaz de nos engolir inevitavelmente.
Uma soma de pontas de agulha, centenas de centros convergentes, divergentes, diluídos. Um espaço feito de olhos fechados, tacteando. Chamei-lhe cegueira.
Um espaço feito de venenos banais, tão mortais como balas certeiras.
Aquelas luzes a atravessar o porto como comboios apressados. Mais e mais rápido.
E o silêncio? Esse silêncio que surge assim como ao ver a vida através de uma lente em erro de paralaxe. A vida sem estéreo, em frames não sincronizados, laços de abraços trocados, um troço armado de betão.
Essa fronteira enorme como uma parede iluminada, vista através de um caleidoscópio quebrado.
O pânico. Aquele de quem sabe que já perdeu o que ainda não tocou.
Apertei um caule de espinhos com força. Não senti nada.
A confiança, às vezes, mata.
V. Violante, Janeiro de 2004

quinta-feira, julho 07, 2005

º Sem título º

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Verde fulvo
3.000 kilómetros de vontade
do mundo que teço ao ritmo do tempo
numa manta retalhada de memórias
Cinzento húmido
3.000 kilómetros de saudade
moinho ao vento
rebento no barro do tijolo
Vermelho abrasivo
3.000 kilómetros de silêncios

quarta-feira, julho 06, 2005

Sou uma apaixonada pela vida, que tropeça, por vezes, nos nós que ela dá. A forma intensa com que a sinto é a minha droga mais dura.

º Sem comentários º

Uma anedota tão boa, não fora ser verdade.

domingo, junho 26, 2005

11:33

sexta-feira, junho 24, 2005

º PAF! º

Hoje quando dei por mim, de repente como que de surpresa, levei um estalo daqueles que vão direitinhos à alma e a deixam dorida. Um estalo daqueles que são dados por uma mão invisível, que vêm não sabemos de onde e nos deixam na mais profunda tristeza.
Apetece-me sair de mim, dói-me o corpo de tanta melancolia.

quarta-feira, junho 22, 2005

º Devaneios de uma noite de Verão no Clube dos loucos e sonhadores º

Uma noite quente de verão, eu, o Arimatheia e a Ângela. Sentados à mesa. Uma água tónica, uma imperial, um café para mim. Com canela, claro. Gosto de roer os paus de canela e ficar com aquele sabor na boca.
Quando tod@s estamos aluados saem coisas belas das nossas conversas. Ora aqui estão alguns belos devaneios que não pude deixar de apontar no meu Moleskine para mais tarde recordar.
- " A prova da existência de Deus são aquelas pessoas irritantes, maçadoras, insistentes, que parecem que foram feitas para nos azucrinarem a cabeça. Só Deus para criar coisas assim." autoria de Arimatheia
- "Deus escreve torto por linhas direitas." autoria de môi même que o Arimatheia complementa em grande:
-"O Diabo tem uma caligrafia perfeita!"
"Os homens não mudam, especializam-se." da autoria de Arimatheia
A sessão de copos acabou com uma tertúlia de humor negro que vou censurar para não ferir susceptibilidades, e porque só tinha piada mesmo dentro do contexto.
Descobri ainda uma paixão em comum com Arimatheia: A literatura de Al Berto.
E percebi que não sou o único serzinho no mundo que acredita que existe uma tristeza positiva, que é sentida mas que apesar de tudo tem o seu lado leve que lhe dá sentido e que faz com que nos sintamos vivos de acordados para a vida de vez em quando.
Um grande agradecimento à loucura de Arimatheia, à minha alienação e às gargalhadas da Ângela e ao charro que eu ela fumamos antes. Sem nós nada disto teria sido possível.

segunda-feira, junho 20, 2005

º Explodir º

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AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

º Implodir º

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(...........................................................)

sábado, junho 18, 2005

º Caleidoscópio º

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Hoje experimento daqueles dias feitos da massa do tempo. Denso, duro. Duro.
Aqueles dias feitos de esferas e bolhas de sabão, a flutuar ao acaso.
Feitos de ampulhetas que ferem o olhar, que se misturam num ápice, rápidos demais para serem compreendidos.
Hoje experimento aquele sentimento sem nome.
Sem nome é o que me aperta o peito, o estomâgo, as costas, os braços e o rosto.
Sem nome são os meus poros hoje, a minha pele, e os meus lábios.
Sem nome fica hoje o meu sangue, o ar, e as pontas dos meus dedos.
As minhas mãos sem nome.
O meu corpo sem nome.
A minha vida sem nome.
O tempo sem nome.
O espaço sem nome.
As feridas sem nome.
A minha identidade estilhaçada como que vista através de um enorme caleidoscópio sem nome.

quinta-feira, junho 16, 2005

º Que se dane º

Que se danem as minhoquinhas, as confusões, as questões desnecessárias, as controlices, as gabarolices, as parvoices, os medos, o bom senso e o bom gosto, as complicações e descomplicações, as dúvidas, as defesas, as incertezas e as certezas.
Que se dane o Bem e o Mal, que se dane Deus e os santinhos todos, os supostos e pressupostos, os iluminados e os ajuizados, os virtuosos e os bem-aventurados.
Que se danem as jaulas, as máscaras, os panos, os planos e os soberanos.
Que se danem as tretas e porras demais.
Eu quero é viver. Hoje.

segunda-feira, junho 13, 2005

º Gosto... º

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De me enroscar nas pessoas que gosto.

º Gosto... º

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Do contentamento simples das crianças.

º Gosto... º

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De ler livros para crianças.

º Gosto... º

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Do cheiro aromárico do café espalhado pelo espaço.

domingo, junho 12, 2005

º Diários anónimos 02 º

"Quatro partes de tempo, um espaço exíguo entre cada palavra.
Nunca me canso destas mesas e cadeiras de madeira, das pedras do lancil, das janelas, do aroma do café pela sala fora.
Olho para trás com melancolia. Um espaço enorme no teu lugar. Nunca estarás realmente aqui ou em lado algum.
Já não te quero, que mais posso dizer? Restou em mim aquela dor fora das palavras.
Desaprendeste a partilhar e a amar pela singeleza. Tenho a tua amargura em mim, carrego-a como um peso a arder às costas."
Fevereiro 2005

º Ensaio sobre a ambivalência º

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"Não te quero dizer o que te quero dizer.
Não te quero dizer o que te quero.
Não te quero dizer o que.
Não te quero dizer.
Não te quero.
Não.
Quero dizer o que não te quero dizer.
Quero dizer o que não te quero.
Quero dizer o que.
Quero dizer.
Quero."
V. Violante, Dezembro de 2000

º Sensual é... º

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Fumar devagarinho, com prazer, em silêncio.

º Sensual é... º

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A paixão ritmada do Tango argentino.

º Sensual é... º

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Um beijo dado com aquela vontade...

sábado, junho 11, 2005

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"Inject your soul with liberty, It's free, it's free."

Cranberries

sexta-feira, junho 10, 2005

º Beyond Good and Evil º

"What is done out of love always takes place beyond good and evil."
Friedrich Nietzsche, Beyond Good and Evil, Aphorism
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Um só passo. Para a frente ou para trás.

º À parte disso º

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."


Fernando Pessoa - Tabacaria

º Escrevo sem querer pensar º

"Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso."
Fernado Pessoa

terça-feira, junho 07, 2005

º Rainha de copas º

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Atravessa-me como uma bala.

º Metrónomo de corda º

Apanho o cacilheiro no cais. Há o som da música a roer o pano das colunas, uma música que ninguém escuta. Foi feita para gente de retina apagada, de olheiras e sapatos coçados. Gente que nunca repara no chão mais gasto aqui que ali. Gente que viajou uma vida inteira e nunca saberá dizer de que cor era o assento onde gastou os ossos.
Nos bolsos da minhas calças tenho nódoas imperceptíveis de sal, de chumbo, de dióxido de carbono, de pólens e gordura de guardanapos e lenços. Há espelhos pequenos como gotículas nas vidraças. Tenho aquela sensação que vez alguma foram limpas, feitas também para a indiferença dos outros.
Uma menininha negra de caracóis luminosos observa-me com dois olhos como balas. Têm uns botins vermelhos e uma expressão metálica. Na mão segura com firmeza um pássaro feito de papel e lápis de cera.
A imagem do barco fica-me impressa no rosto como um postal daqueles que se enviam por amor.
No momento preciso, o portão cai. O barco atracou ao compasso rigoroso de um metrónomo de corda. As pessoas saltam para a plataforma do mar para terra. Movimentam-se rápida e desajeitadamente, mas com incrível precisão. Não se tocam, ondulam como um gigantesco cardume colorido de ganga e cabedal, de lâ e flanela e algodão.
Está a chover.
O inverno insiste em não abandonar os céus.
V. Violante, Março de 2005

sábado, junho 04, 2005

º Felicidade é... V º

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Jogar Mikado estendida no chão da sala.